RESPOSTAS DO PROFESSOR NO CORPO DO E-MAIL DO ALUNO
Minhas expectativas do curso são enormes, se dá o mesmo com respeito a tua “Suma Gramatical”: são tantas e tão profundas minhas interrogações sobre esse assunto e correlatos que mal consigo esperar para ter um exemplar em minhas mãos! Sei bem que tais perguntas encontrarão resposta após muitas meditações de minha parte e acredito que a leitura de tua “Suma” poderá me ajudar nesse intento, mas não me contendo (e sabendo que o curso tem caráter antes normativo) decidi formular algumas perguntas teóricas que me inquietam atualmente. Ei-las:
1) É correto dizer que em ciência a divisão se ordena à definição? Se dá o mesmo com a arte? (ou nesta ocorre o contrário: a definição precede a divisão?)
RESPOSTA. Como há de compreender, às perguntas mais filosóficas, ou seja, não diretamente atinentes ao conteúdo de um curso de gramática, não posso responder senão mais sumariamente. Pois bem, a divisão precede à definição e ordena-se a ela. 
2) Se defino palavra como “voz ou som vocal significativo ou que significa”, posso dizer que “voz” faz as vezes de matéria e “significativo” de forma?
RESPOSTA. Aqui, já estamos no terreno do filosófico ordenado ao gramatical. Sim, a voz está para o significado da palavra assim como a matéria está para a forma.
3) Se assim é, o que devo considerar como forma, o significado ou o ato de significar? (penso que o significado não inere na voz, mas está relacionado com a figura da voz no intelecto, poderia então o significado ser considerado forma da voz mesmo sem nela inerir, se sim de que maneira?)
RESPOSTA. Antes de tudo, quando no âmbito da Gramática se fala de matéria e de forma, fala-se analogicamente. Depois, analogicamente falando, o significado é que é a forma, enquanto o ato de significar é a ação de significar. – Deixando de parte o tema da inerência (porque, com efeito, repita-se, falamos aqui de matéria e de forma tão só analogicamente), há antes de tudo a palavra cordial (ou seja, a concepção mental); depois a palavra mental, que é o protótipo mental da palavra vocal (que é signo daquela concepção); e, por fim, a palavra escrita (que por sua vez é signo da palavra vocal, ou seja, signo de signo). – A palavra cordial não é palavra propriamente dita: como dito, é a concepção mental de que a palavra é signo.
4) A figura da palavra pode ser dita forma? (penso que se diz forma enquanto ato de uma potencia e figura enquanto categoria do ente: espécie de qualidade).

RESPOSTA. A significação ou significado é como a forma da palavra, assim como o é a alma para qualquer vivente: com efeito, tire-se a significação de uma palavra, e ela, de certo modo, tornar-se-á tão cadáver como o corpo de um animal já sem alma. Por seu lado, o corpo da palavra, ou seja, sua configuração ou figura externa, é para ela o que é o corpo para qualquer animal: o conjunto de suas partes constitutivas ordenadas segundo a alma e para a própria alma. Tome-se uma palavra de outra língua: o vocábulo espanhol boato, por exemplo. Logo vemos, pelo contexto em que se usa, que não pode tratar-se do mesmo que o português boato: é, com respeito a este, um heterossemântico (e vice-versa). Que temos então diante de nós? Um corpo linguístico, sim, com configuração ou figura externa de palavra; como porém não sabemos o que significa, mostra-se-nos como algo morto, sem vida. Apenas lhe saibamos, todavia, a significação – “pompa, magnificência” –, é como se prontamente adquirisse vida. E de fato é a significação o que lhe insufla “vida”, justamente por ser sua forma. Por ser sua “alma”.
5) Como se dá a relação da figura da palavra com as paixões na alma que as palavras significam? (penso que é necessários um ente de razão, uma relação de razão, estou certo? o signo linguístico “figura + paixões na alma” é uma relação de razão? Se considero o dito por Saussurre que o signo é a associação de uma “imagem acústica” com um “conceito”, seria correto interpretá-lo como quem diz que o signo é um relação (real/de razão?) que se dá na “figura” e nas “paixões do intelecto”?)
RESPOSTA. A adequada resposta a esta pergunta não se pode formular senão como na Suma Gramatical: ao longo de muitas páginas, umas trinta. Aqui posso dar-lhe apenas uma ilustração, tirada da mesma Suma:
«Se, pois, como dito, a disposição das partes e a configuração das palavras se dão segundo sua significação, então não são gratuitas. Assim, por exemplo, em português as partes componentes de uma forma verbal hão de combinar-se numa configuração final tal, que sirva tanto para significar determinada ação como para expressar a mesma categoria ação (além, naturalmente, de cossignificar o tempo por que esta se mede e a pessoa que a cumpre). Desse modo, se as palavras não são signos naturais, como um gemido de dor, e se impõem convencionalmente, isso não quer dizer que sejam “antinaturais”, razão por que quem forma as palavras não as forma de qualquer maneira, mas de alguma maneira que sirva à significação para as quais são formadas – assim como um fazedor de bigornas não as faz de qualquer modo, mas em ordem ao fim para o qual são feitas. E, com efeito, nenhuma bigorna pode deixar de ser um bloco de metal duro (geralmente ferro revestido de aço), de corpo central apoiado sobre um cepo e em forma de paralelepípedo com extremidades que se afilam em cone ou pirâmide, sem deixar por isso mesmo de servir para que se malhem e se moldem sobre ela diferentes metais, a quente ou a frio. Pois tampouco pode um verbo servir para significar determinada ação e expressar a categoria ação se não se formar de determinada maneira e não tiver determinada configuração ou figura externa.»  

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