“NÃO NOS PERCAMOS…”, CURSO GRATUITO DE CARLOS NOUGUÉ

1) “Não nos percamos” é um como “bordão” que utilizo frequentemente no início das aulas da Escola Tomista, para indicar a altura do programa em que se está.
2) Mas, aproveitando o ensejo, “Não nos percamos” traduz muito bem o intuito do curso a que dá nome: deixar atualizados os que o seguirem quanto a assuntos históricos, políticos, econômicos, artísticos, gramaticais, etc., ensejados por qualquer razão candente. Nele me fundarei na doutrina exposta em meus mesmos livros, já lançados ou por lançar (Da História e Sua Ordem a Deus [por lançar em meados do próximo ano], Do Papa Herético e outros opúsculos, Da Arte do Belo, Suma Gramatical da Língua Portuguesa, etc.).
3) O curso será gratuito e não terá data para terminar. Terá uma aula semanal, de cerca de 30 minutos, normalmente às terças-feiras. Mas, dada a gratuidade do curso, eventualmente em alguma semana a aula poderá ir ao ar outro dia, ou até absolutamente não ir ao ar por motivo de força maior. A primeira aula estará disponível no dia 10 de setembro próximo.
4) Toda e qualquer pessoa poderá inscrever-se. Bastará entrar em minha plataforma de cursos (https://estudostomistas.eadplataforma.com/) e preencher o requerido (nome e sobrenome, telefone e e-mail) para o curso em questão; com isso receberá uma senha que lhe permitirá acessar todas as aulas. As inscrições poderão fazer-se a qualquer tempo a partir do mesmo dia 10 de setembro próximo. Os inscritos receberão semanalmente em seu e-mail a notificação de que a aula já está no ar; mas terão sempre à sua disposição todas as aulas já gravadas e publicadas, podendo assistir a elas quando e como quiserem.
5) Os que se inscreverem estarão proibidos, sob as penas previstas em lei, de republicar qualquer aula em qualquer espaço público.
6) Por razões óbvias, e ao contrário do que se dá em meus cursos pagos, este curso não dará certificado, nem seus alunos poderão escrever-me para solucionar dúvidas.
7) Todos os que se inscreverem receberão um cupom de desconto de 10% na compra de dois de meus livros (Da Arte do Belo e Do Papa Herético e outros opúsculos) no seguinte endereço: https://www.loja.santotomas.com.br/.
8) Os que também se inscreverem na Escola Tomista (cf. a referida plataforma) poderão assistir gratuitamente às 32 aulas de meu curso “Para Bem Escrever na Língua Portuguesa”, com acesso a suas apostilas (ainda que sem poder escrever-me para solucionar dúvidas). Este direito, todavia, se suspenderá para os que não prosseguirem na mesma Escola Tomista.
Observação: os alunos inscritos na Escola Tomista recebem um cupom de 15% para aquisição dos mesmos dois livros e também terão livre acesso ao curso de gramática.
Junto muito especialmente à Escola Tomista” (curso de cinco anos conducente á sabedoria) e a meus livros, “Não Nos Percamos… é mais um esforço meu por contribuir para a formação de uma elite cristã e tomista capaz de fazer frente às doutrinas iníquas com que o mundo e as falsas religiões nos atacam. Convidem seus amigos a que também se inscrevam. Sejam todos muito bem-vindos.

“QUEM SOU EU: UMA BREVÍSSIMA AUTOBIOGRAFIA”, por Carlos Nougué

 
QUEM SOU EU: UMA BREVÍSSIMA AUTOBIOGRAFIA
Carlos Nougué
MOTIVO
Depois que um amigo e aluno procedeu, generosamente, a fazer uma página na Wikipédia sobre mim, incluiu-se na mesma página um item referente a polêmicas em que me envolvi ao longo dos últimos 10 anos, com notas que remetem a artigos contrários a mim de autoria de pessoas das mais variadas correntes de ideias. Como se pode ver ali, sou tachado ora de tradicionalista, ora de sedevacantista, ora de neocon; ora de medieval ou fundamentalista, ora de aderente da nova direita brasileira; etc. Mas, se uma pessoa é tachada de coisas tão díspares, a verdade quanto a ela há de encontrar-se no que Aristóteles chama justo meio, que, com respeito a mim, costumo traduzir de modo algo irônico: Eu sou eu. 
UMA BREVE NOTÍCIA DE MINHA VIDA QUANTO AO QUE INTERESSA AQUI, 
OU SEJA, NO CAMPO DAS IDEIAS
1)  Na fatídica década de 1960, como muito jovens católicos, apostatei da fé e aderi ao ateísmo e à revolução; tinha então 17 anos.
2) Em 1987 abandonei a revolução, ainda que permanecesse ateu.
3) Progressivamente, com a frequentação das artes do belo, da filosofia clássica e da doutrina tomista, fui passando a agnóstico, para enfim voltar, pela só graça e infinita misericórdia de Deus, à religião católica; tinha então 46 anos (1998). Abjurei da apostasia e da adesão à revolução tanto em ato religioso privado como em diversas entrevistas a jornais e outros meios públicos.
4) Liguei-me à FSSPX e ao Mosteiro da Santa Cruz, ou seja, fiz-me tradicionalista.
5) Tornei-me convictamente tomista, mas de um tomismo confuso, resultante do autodidatismo; e assim permaneci até cerca de dez anos atrás, a partir de quando tomei por mestres e guias, inicialmente, ao Pe. Cornelio Fabro (excluído seu voluntarismo final) e, depois, ao Pe. Álvaro Calderón. Começava a desenhar-se assim o que hoje se plasma em meus livros e em meus cursos on-line: um tomismo próprio e, quero crê-lo, nada confuso.
6) Há uns oito anos, desafiei Olavo de Carvalho a um debate, mas com o único intuito de desagravar a honra de um amigo (embora a coisa também tivesse, é óbvio, um fundo doutrinal). – Diga-se de passagem, aliás, que não vivo de debates e bate-bocas de Internet; vivo de escrever livros e de ministrar cursos.
7) Há cerca de três anos, concluí que deveria afastar-me da chamada Resistência, para tornar-me, digamos, um tradicional (não me agrada o termo “tradicionalista”) solitário. As razões para tal deixei-as claras em escritos meus posteriores. Mas atenção: nem a FSSPX nem a Resistência são cismáticas, e, se não estão em “plena comunhão com Roma”, é por uma injusta e pois inválida excomunhão e pela imensa crise desencadeada pelo Concílio Vaticano II. Têm por fim salvaguardar a fé, os sacramentos e o sacerdócio e não são de modo algum sedevacantistas; e por isso afirmo que têm todo o direito de existir, apesar de minhas divergências quanto a aspectos de seu modo de atuar. – Ademais, concluí que a questão “acordo ou não acordo com o Vaticano” não é questão pertinente a mim, um simples filósofo católico laico.
8) Quanto ao sedevacantismo, considero-o uma sorte de vertigem. Já fiz suficiente crítica dele em meu Do Papa Herético; e as invectivas e diatribes de seus defensores contra mim – ou nada lisas, ou profundamente ignorantes  relego-as ao esquecimento.
9) Quanto ao Vaticano II e ao conjunto do magistério conciliar, minha crítica está vertida em diversos escritos e vídeos, e em particular no já referido livro Do Papa Herético. Tem afinidade com a doutrina do Pe. Álvaro Calderón, mas não deixa de ter feição perfeitamente própria, como se vê por minha posição com respeito à questão do papa herético e à dos sacramentos tais quais instituídos pelo magistério conciliar.
10) Apoiei a participação dos católicos nas manifestações contra Dilma e o voto católico em Bolsonaro, mas com ressalvas. Os católicos deveriam comparecer àquelas manifestações como tais, com rosário na mão, etc.; e deveriam votar em Bolsonaro como em um mal menor, ou seja, sabendo que se tratava, ao fim e ao cabo, de um mal. Em ambos os casos, buscava-se um bem: que nos livrássemos do inimigo mais virulento, o PT; e nisso eu seguia não só a São Pio X – que, por exemplo, disse aos católicos italianos que “deveriam votar no candidato menos indigno” –, mas ao simples e puro bom senso. Era uma questão de prudência.
11) Já há cerca de 10 anos, comecei a empenhar-me no combate pela Realeza de Cristo e pelo estado cristão, sem o qual as nações não passarão nunca de ser pasto de demônios. Sigo nisto ao Cardeal Pie de Poitiers, o inspirador do pontificado de São Pio X, e a quase dois mil anos de magistério da Igreja. Diga-se, aliás, que para este combate pouco importa se sairá vitorioso. O que importa é antes de tudo combatê-lo, como o diz peremptoriamente o mesmo Cardeal Pie de Poitiers; e é o que tento incutir nos pujantes centros e institutos da Liga Cristo Rei. – Mas por este combate sou duramente atacado pelas três espécies de liberalismo: o católico, o puro, e o disfarçado de conservadorismo. Tais ataques fazem parte dos galardões que posso obter nesta vida em ordem à definitiva, e me aguilhoam antes a continuar que a deter-me.
12) Com isso, já posso concluir esta brevíssima autobiografia. Sou, sim, de direita, mas da única que se pode dizer propriamente tal porque tenta imitar a Aquele que está à direita do Pai e que, no dia do juízo, porá à sua direita os eleitos.
Observação final: não me custa relembrar: eu sou eu…          

“LIBERTAS PRAESTANTISSIMUM”, de Leão XIII


CARTA ENCÍCLICA DO SUMO PONTÍFICE LEÃO XIII
LIBERTAS PRAESTANTISSIMUM
SOBRE A LIBERDADE HUMANA
Aos Veneráveis Irmãos Patriarcas, Primazes, Arcebispos, e todos os Bispos do Orbe Católico em comunhão com a Sé Apostólica: Sobre a liberdade humana.
Veneráveis Irmãos: Saudação e Benção Apostólica.
  
Exórdio: Excelência e conceito da liberdade.
1. A liberdade, excelente bem da natureza e exclusivo apanágio dos seres dotados de inteligência ou de razão, confere ao homem uma dignidade em virtude da qual ele é colocado entre as mãos do seu conselho e se torna senhor de seus atos. E o que, todavia, é principalmente importante nesta prerrogativa é a maneira como ela se exerce, porque do uso da liberdade nascem os maiores males, assim como os maiores bens. Sem dúvida, está no poder do homem obedecer à razão, praticar o bem, caminhar direito ao seu fim supremo. Mas pode também seguir outra direção diferente, e, seguindo espectros de bens falazes, destruir a ordem legítima e correr para uma perdição voluntária.
O libertador do gênero humano, Jesus Cristo, tendo restaurado e aumentado a antiga dignidade da nossa natureza, fez sentir sua influência principalmente sobre a vontade mesma do homem; e, pela sua graça, que lhe prodigalizou os socorros, pela felicidade eterna, de que lhe abriu a perspectiva no Céu, elevou-o a um estado melhor. E, por um motivo semelhante a Igreja bem mereceu sempre deste dom excelente da nossa natureza, e não cessará de bem merecer dele, pois que é a ela que pertence assegurar aos benefícios, que nós devemos a Jesus Cristo, a sua propagação em toda a consecução dos séculos. — E, contudo, há um grande número de homens que crêem que a Igreja é adversária da liberdade humana. A causa disto está na idéia defeituosa, e como ao avesso, que se faz da liberdade; porque, com esta mesma alteração da sua noção, ou com a exagerada extensão que se lhe dá, chega-se a aplica-la a muitas coisas, nas quais o homem, a julgar segundo a reta razão, não pode ser livre.
Erros sobre a liberdade.
2. Já falamos algures, e principalmente na Encíclica Immortale Dei (sobre a Constituição Cristã dos Estados. DP 14), daquilo a que chamam as liberdades modernas; e, distinguindo nelas o bem daquilo que lhe é oposto, Nós estabelecemos ao mesmo tempo que tudo o que essas liberdades contêm de bom é tão antigo como a verdade, como um elemento corrompido, produzido pela perturbação dos tempos e pelo desordenado amor da inovação. Mas, visto que muitos se obstinam em ver nestas liberdades, mesmo no que elas contêm de vicioso, a mais bela glória da nossa época e o necessário fundamento das constituições políticas, como se sem elas se não pusesse imaginar o governo perfeito, pareceu-Nos necessário para o interesse público, em face do qual Nós Nos colocamos, tratar expressamente esta questão.
  
A) A LIBERDADE MORAL NO INDIVÍDUO.
  
3. O que diretamente Nós temos em vista é a liberdade moral, considerada quer nos indivíduos, quer na sociedade. É bom, entretanto, dizer em primeiro lugar algumas palavras sobre a liberdade natural, a qual, apesar de ser completamente distinta da liberdade moral, é contudo a fonte e o princípio donde toda a espécie de liberdade dimana por si mesma e como espontaneamente.
A liberdade natural é própria dos seres racionais.
4. Esta liberdade, que certamente é para nós a voz da natureza, o juízo e senso comum de todos os homens não a reconhecem senão aos seres que têm o uso da inteligência ou da razão, e é nela que consiste manifestamente a causa que nos faz considerar o homem responsável pelos seus atos. E não podia ser doutra maneira; porque, ao passo que os animais não obedecem senão aos sentidos e não são impelidos senão pelo instinto natural a procurar o que lhes é útil ou a evitar o que lhes seria prejudicial, o homem tem, em cada uma das ações de sua vida, a razão para o guiar. Ora, a razão, relativamente aos bens deste mundo, diz-nos de todos e de cada um que eles podem indiferentemente ser ou não ser; donde se conclui que, não lhes parecendo nenhum deles absolutamente necessário, ele dá à vontade o poder de opção para escolher o que lhe apraz. Mas se o homem pode julgar da contingência, como se diz, dos bens de que Nós falamos, é porque ele tem uma alma simples de sua natureza, espiritual e capaz de pensar; uma alma que, sendo tal, não tira sua origem das coisas corpóreas, visto que delas não depende na sua conservação; mas que, criada imediatamente por Deus e ultrapassando com uma imensa distância a condição comum dos corpos, tem o seu modo próprio e particular de vida e de ação: donde resulta que, compreendendo pelo seu pensamento as razões imutáveis e necessárias da verdade e do bem, vê que estes bens particulares não são de modo algum bens necessários. Assim provar que a alma humana está desligada de todo o elemento mortal e é dotada da faculdade de pensar, é estabelecer ao mesmo tempo a liberdade natural sobre o seu mais sólido fundamento.
A Igreja Defensora da Liberdade.
 5. Ora, esta doutrina da liberdade como a da simplicidade, espiritualidade e imortalidade da alma humana, ninguém a prega mais algo e a afirma com mais constância do que a Igreja Católica; ela tem-na ensinado em todos os tempos e a defende como um dogma. Mais ainda: perante os ataques dos heréticos e dos fautores de novas opiniões, a Igreja tem tomado a liberdade sob a sua proteção e tem salvado da ruína este grande bem do homem. A este respeito, os monumentos da história testemunham a energia com repeliu os esforços insanos dos Maniqueus e outros; e, em tempos mais recentes, ninguém ignora com que zelo e força, quer no Concílio de Trento, quer mais tarde contra os sectários de Jansênio, ela combateu pela liberdade do homem, não deixando, em nenhum tempo e lugar, tomar incremento ao Fatalismo.
Noção de liberdade.
6. A liberdade, portanto, é, como temos dito, herança daqueles que receberam a razão ou a inteligência em partilha; e esta liberdade, examinando-se a sua natureza, outra coisa não é senão a faculdade de escolher entre os meios que conduzem a um fim determinado. É neste sentido que aquele que tem a faculdade de escolher uma coisa entre alguma outra, é senhor de seus atos. Ora, toda a coisa aceita com o fim de obter por ela uma outra, pertence ao gênero do bem que se chama útil; e tendo o bem como característica operar propriamente sobre o apetite, é mister concluir daí que o livre arbítrio é a característica da vontade, ou antes é vontade mesma, enquanto nos seus atos ela tem a faculdade de escolher. Mas é impossível à vontade mover-se, se o conhecimento da inteligência, como uma luz, não a esclarece primeiramente: isto é, que o bem desejado pela vontade é necessariamente o bem quanto conhecido pela razão. E isto tanto mais que, em toda a volição, a escolha é sempre precedida dum juízo sobre a verdade dos bens e sobre a preferência que devemos conceder a um deles sobre os outros. Ora, julgar é da razão, não da vontade; não se pode razoavelmente duvidar disto. Admitido, pois, que a liberdade reside na vontade, que por sua natureza é um apetite obediente à razão, segue-se que ela, como a vontade, tem por um bem conforme à razão.
Perfeição e imperfeição da liberdade.
7. Todavia, não possuindo cada uma destas faculdades a perfeição absoluta, pode suceder, e sucede freqüentemente, que a inteligência proponha à vontade um objeto que, em lugar duma bondade real, não tem senão a aparência, uma sombra de bem, e que a vontade contudo se aplique. Mas assim como o poder enganar-se, e enganar-se realmente, é uma falta que acusa a ausência da perfeição integral na inteligência, assim também aderir a um bem falso e enganador, ainda que seja um indício de livre arbítrio, constitui contudo um defeito da liberdade, como a doença o é da vida. Igualmente a vontade, só pelo fato de que depende da razão, cai num vício radical que não é senão a corrupção e o abuso da liberdade. Eis por que Deus, a perfeição infinita, que, sendo soberanamente inteligente e a bondade por essência, é também soberanamente livre, não pode de nenhuma forma querer o mal moral. E o mesmo sucede com os bem-aventurados do céu, graças à intuição que têm do soberano bem. É esta a justíssima observação que Santo Agostinho e outros faziam contra os Pelagianos: “Se a possibilidade de enganar-se no bem fosse da essência e da perfeição da liberdade, então Deus, Jesus Cristo, os Anjos, os Bem-aventurados, entre os quais este poder não existe, ou não seriam livres, ou, pelo menos, o não seriam tão perfeitamente como o homem em seu estado de prova e imperfeição” — O Doutor Angélico ocupou-se freqüente e longamente desta questão; e da sua doutrina resulta que a faculdade de pecar não é uma liberdade, mas uma escravidão. Muito sutil é a sua argumentação sobre as palavras do Senhor Jesus: Aquele que comete o pecado é escravo do pecado (Jo 8, 34). “Todo ser é o que lhe convém segundo a natureza. Logo, quando se move por um agente exterior, não age por si mesmo, mas pelo impulso de outrem, o que é próprio de escravo. Ora, segundo a natureza, o homem é racional. Por isso quando se move segundo a razão, é por um movimento próprio que ele se move, e opera por si mesmo, o que é essência da liberdade; mas, quando peca, procede contra a razão, e então é como se fosse posto em movimento por um outro e sujeito a uma dominação estranha. É por isto que “aquele que comete o pecado é escravo do pecado”. — Era isto o que havia visto claramente a filosofia antiga, aquela principalmente cuja doutrina era que ninguém é livre como o sábio, e que reservava, como é sabido, o nome de sábio àquele que se tivesse acostumado a viver constantemente segundo a natureza, isto é, na honestidade e na virtude.
Proteção e auxílios da liberdade. A lei.
8. Sendo tal a condição da liberdade humana, era necessário ministrar-lhe auxílios e socorros capazes de dirigir todos os seus movimentos para o bem e de desvia-los do mal. Sem isto, a liberdade teria sido para o homem uma coisa muito prejudicial. E primeiramente era-lhe necessária uma lei, isto é, uma norma do que era preciso fazer e omitir. Falando com propriedade, não pode dar-se isto entre os animais que operam por necessidade, porque todos os seus atos os realizam sob o impulso da natureza, sendo-lhes impossível adotar por si mesmos outro modo de ação. Mas os seres que gozam de liberdade têm por si mesmos o poder de operar ou não, proceder de tal ou qual forma, visto que o objeto da sua vontade não o escolhem senão quando intervenha o juízo da razão, de que Nós falamos. Este juízo diz-nos não somente o que é bem em si ou o que é o mal, mas também o que é bom e por conseguinte se deve realizar, ou o que é mau e por conseguinte se deve evitar. É, com efeito, a razão que prescreve à vontade o que ela deve procurar ou de que deve fugir para que o homem possa um dia atingir esse fim supremo, para o qual deve dirigir todos os seus atos. Ora, esta ordenação da razão é o que se chama lei. Se, pois, a lei é necessária ao homem, é no seu mesmo livre arbítrio, isto é, na necessidade que tem de não se pôr em desacordo com a reta razão, que é preciso procurar, como na sua raiz, a causa primeira. E nada se pode dizer ou imaginar de mais absurdo e mais contrário ao bom senso do que esta asserção: o homem sendo livre por natureza, deve estar isento de toda lei. Se assim fosse, resultaria que é necessário, para a liberdade, não estar de acordo com a razão, quando a verdade é inteiramente o contrário, isto é, o homem deve estar sujeito à lei precisamente por que é livre por natureza. Assim, pois, é a lei que guia o homem nas suas ações e é ela também que, pela sanção das recompensas e das penas, o leva a praticar o bem e o afasta do pecado.
Tal é, acima de todas, a lei natural que está escrito e gravada no coração de cada homem, porque é a razão mesma do homem que lhe ordena a prática do bem e lhe interdiz o pecado. Mas esta prescrição da razão humana não poderia ter força de lei, se ela não fosse órgão e intérprete duma razão mais alta à qual o nosso espírito e a nossa liberdade devem obediência. Sendo, na verdade, a missão da lei impor deveres e atribuir direitos, a lei assenta completamente sobre a autoridade, isto é, sobre um poder verdadeiramente capaz de estabelecer esses deveres e definir esses direitos, capaz também de sancionar as suas ordens por castigos e recompensas; coisas todas que não poderiam evidentemente existir no homem, se ele desse a si próprio, como legislador supremo, a regra dos seus próprios atos. Disto se conclui, pois, que a lei natural outra coisa não é senão a lei eterna gravada nos seres dotados de razão, inclinando-os para o ato e o fim que lhes convenha; e este não é senão a razão eterna de Deus, Criador e Governador do mundo.
A graça de Deus.
  
9. A esta regra de nossos atos, a estes freios ao pecado, a bondade de Deus quis ajuntar certos auxílios, singularmente próprios para defender e guiar a vontade do homem. Sobressai, no primeiro lugar destes auxílios, o poder da graça divina, a qual esclarecendo a inteligência e inclinando incessantemente para o bem moral a vontade salutarmente reforçada e fortificada, torna ao mesmo tempo mais fácil e mais seguro o exercício da nossa liberdade natural. E seria afastar-se completamente da verdade imaginar que, por meio desta intervenção de Deus, os movimentos da vontade perdem a sua liberdade; porque a influência da graça divina alcança o íntimo do homem e se harmoniza com a sua propensão natural, pois que tem sua fonte n’Aquele que é o autor da nossa alma e da nossa vontade e move todos os seres duma maneira conforme à natureza deles. Pode mesmo dizer-se que a graça divina, como observa o Doutor Angélico, por isso mesmo que dimana do autor da natureza é maravilhosa e naturalmente apta para proteger todas as naturezas individuais e para conservar a cada uma o seu caráter, a sua ação, a sua energia.
  
B) A LIBERDADE MORAL NA SOCIEDADE.
A lei humana.
10. O que acaba de ser dito da liberdade dos indivíduos, é fácil aplica-los aos homens que a sociedade civil une entre si; porque o que a razão e a lei natural fazem para os indivíduos, a lei humana, promulgada para o bem comum dos cidadãos, o realiza para os homens que vivem em sociedade. — Mas, entre as leis humanas, há as que têm por objeto o que é bem ou mal naturalmente, acrescentando à prescrição de praticar um e evitar o outro uma sanção conveniente. Tais leis não têm de modo algum sua origem na sociedade dos homens; porque, assim como não foi a sociedade que criou a natureza humana, também não foi ela que fez com que o bem esteja em harmonia e o mal em desacordo com essa natureza; mas tudo isto é anterior à própria sociedade humana, e deve absolutamente estar ligado à lei natural e portanto à lei eterna. Como se vê, os preceitos de direito natural compreendidos nas leis dos homens não têm somente o valor da lei humana, mas supõem primeiro que tudo essa autoridade muito mais elevada e muito mais augusta que brota da lei natural e da lei eterna. Neste gênero de leis, a missão de legislador civil reduz-se a obter, por meio duma disciplina comum, a obediência dos cidadãos, punindo os maus e os viciosos, com o fim de os afastar do mal e de os chamar ao bem, ou ao menos de os impedir de ferir a sociedade e de lhe ser prejudicial.
11. Quanto às outras prescrições do poder civil, não procedem imediata ou diretamente do direito natural; são dele conseqüências mais afastadas e indiretas, e têm por fim precisar os pontos diversos sobre os quais a natureza não se tinha pronunciado senão duma maneira vaga e geral. Assim, a natureza ordena aos cidadãos que contribuam com o seu trabalho para a tranqüilidade e prosperidade pública: em que medida, em que condições, sobre que objetos, estabelece-o a sabedoria dos homens e não a natureza. Ora estas regras particulares de proceder, criadas por uma razão prudente e intimadas por um poder legítimo, constituem o que propriamente se chama lei humana. Visando o fim próprio da comunidade, esta lei ordena a todos os cidadãos que concorram para ele, e proíbe-lhes que dele se afastem; e enquanto segue a natureza e se harmoniza com as suas prescrições, ela conduz-nos ao que é bem e afasta-nos do oposto. Por onde se vê que é absolutamente na lei eterna de Deus que é mister buscar a regra e a lei da liberdade, não somente para os indivíduos, mas também para as sociedades humanas.
A lei eterna, norma e regra da liberdade.
12. Numa sociedade de homens, portanto, a liberdade digna deste nome não consiste em fazer tudo o que nos apraz: isso seria uma confusão extrema no Estado, uma perturbação que conduziria à opressão. A liberdade consiste em que, com o auxílio das leis civis, possamos mais facilmente viver segundo as prescrições da lei eterna. E para aqueles que governam, a liberdade não é o poder de mandarem ao acaso e segundo seu bel-prazer: isso seria uma desordem não menos grave e extremamente perigosa para o Estado; mas a força das leis humanas consiste em que elas sejam olhadas como uma derivação da lei eterna e que não há nenhuma das suas prescrições que não seja contida nela como no princípio de todo direito. Santo Agostinho disse com muita sabedoria (De lib. Arb., lib. I, c. 4, n. 15): “Eu penso, e vós bem vedes também, que, nesta lei temporal, nada há de justo e de legítimo que os homens não tenham ido haurir na lei eterna”. Suponhamos, pois, uma prescrição dum poder qualquer que esteja em desacordo com os princípios da reta razão e com os interesses do bem público: não teria força alguma de lei, porque não seria uma regra de justiça e afastaria os homens do bem, para o qual a sociedade foi formada.
13. Por sua natureza, pois, e sob qualquer aspecto que seja considerada, quer nos indivíduos, quer nas sociedades, e entre os superiores não menos que entre os subordinados, a liberdade humana supõe a necessidade de obedecer a uma regra suprema e eterna; e esta regra não é outra senão a autoridade de Deus impondo-nos as suas ordenações ou as suas proibições, autoridade soberanamente justa que, longe de destruir ou de diminuir, de qualquer modo, a liberdade dos homens, a protege e a leva à sua perfeição; porque a verdadeira perfeição de todo o ser é tender e atingir o seu fim: ora, o fim supremo, para o qual deve tender a liberdade humana, é Deus.
A ação da Igreja.
14. São estas máximas de doutrina, muito verdadeira e muito elevada, conhecidas mesmo pela luz da razão, que a Igreja, instruída pelos exemplos e pela doutrina do seu Divino Autor, tem propagado e afirmado por toda a parte, e segundo os quais ela jamais tem cessado de regrar a sua missão e de informar as nações cristãs. Pelo que toca aos costumes, as leis evangélicas não somente se avantajam muito a toda a sabedoria pagã, mas elas chamam o homem e o formam verdadeiramente numa santidade desconhecida dos antigos; e, aproximando-o de Deus, levam-no à posse duma liberdade mais perfeita.
É assim que sempre se tem evidenciado o maravilhoso poder da Igreja para a proteção da liberdade civil e política dos povos. Não há necessidade de enumerar os seus benefícios deste gênero. Basta lembrar a escravidão, essa velha vergonha das nações pagãs, que os seus esforços e principalmente a sua feliz intervenção fizeram desaparecer. O equilíbrio dos direitos, como a verdadeira fraternidade entre os homens, foi Jesus Cristo quem primeiro a proclamou; e à sua voz respondeu a dos seus Apóstolos, declarando que não há nem Judeu, nem Grego, nem Bárbaro, nem Cita, mas que todos são irmãos em Cristo. Sobre este ponto o ascendente da Igreja é tão grande e tão reconhecido que, aonde quer que chega a sua influência — tem-se a experiência disso — a grosseria dos costumes não pode subsistir por muito tempo. À brutalidade sucede em breve a doçura, às trevas da barbárie a luz da verdade. E a Igreja não tem cessado jamais de fazer sentir mesmo aos povos, educados pela civilização, seus benefícios, resistindo aos caprichos da iniqüidade, afastando a injustiça da cabeça dos inocentes ou dos fracos, e empregando-se, enfim, em estabelecer as coisas públicas uma organização que possa, pela sua equidade, tornar-se amada dos cidadãos, ou fazer-se temer dos estrangeiros pelo seu poder.
A Igreja, defensora da autoridade.
15. É, além disso, um dever real respeitar o poder e submeter-se a leis justas; donde deriva que a autoridade vigilante das leis preserva os cidadãos das empresas criminosas dos maus. O poder legítimo vem de Deus, e aquele que resiste ao poder, resiste à ordem estabelecida por Deus; assim é que a obediência adquire uma nobreza maravilhosa, pois que se não inclina senão da mais justa e mais alta das autoridades. Mas, desde que falta o direito de mandar, ou o mandato é contrário à razão, à autoridade de Deus, então é legítimo desobedecer aos homens a fim de obedecer a Deus. Deste modo, achando-se as vias da tirania fechadas, o poder não chamará tudo a si; estão salvaguardados os direitos de cada cidadão, os da sociedade doméstica, os de todos os membros da nação; e todos enfim participam da verdadeira liberdade, aquela que consiste, como demonstramos, em que cada um possa viver segundo as leis e segundo a reta razão.
A falsa liberdade.
16. Se, nas discussões que travam sobre a liberdade, se entendesse esta liberdade legítima e honesta, tal como a razão e a Nossa palavra a acabam de descrever, ninguém ousaria lançar à Igreja a censura que se lhe lança com uma soberana injustiça, a saber: que ela é inimiga da liberdade dos indivíduos ou da liberdade dos Estados. Mas há um grande número de homens que, a exemplo de Lúcifer, — de quem são estas palavras criminosas: Não obedecerei, — entendem pelo nome de liberdade o que não é senão pura e absurda licença. Tais são aqueles que pertencem à escola tão espalhada e tão poderosa desses homens que foram tirar o seu nome à palavra liberdade, querendo ser chamados Liberais.
O Liberalismo radical.
17. E, com efeito, o que são os partidários do Naturalismo e do Racionalismo em filosofia, os fautores do Liberalismo o são na ordem moral e civil, pois que introduzem nos costumes e na prática da vida os princípios postos pelos partidários do Naturalismo. — Ora, o princípio de todo o racionalismo é a supremacia da razão humana, que, recusando a obediência devida à razão divina e eterna e pretendendo não depender senão de si mesma, se arvora em princípio supremo, fonte e juiz da verdade. Tal é a pretensão dos sectários do Liberalismo, de que Nós falamos: não há, na vida prática, nenhum poder divino ao qual se tenha de obedecer, mas cada um é para si sua própria lei. Daí procede essa moral que se chama independente, e que, sob a aparência da liberdade, afastando a vontade da observância dos preceitos divinos, conduz o homem a uma licença ilimitada.
É o que, finalmente, resulta disto, principalmente nas sociedades humanas, é fácil de ver; porque uma vez fixada essa convicção no espírito de que ninguém tem autoridade sobre o homem, a conseqüência é que a causa eficiente da comunidade civil e da sociedade deve ser procurada, não num princípio exterior ou superior ao homem, mas na livre vontade de cada um, e que o poder público dimana da multidão como sendo a sua primeira fonte; além disso, tal como a razão individual é para o indivíduo a única lei que regula a vida particular, a razão coletiva deve sê-lo para a coletividade na ordem dos negócios públicos; daí o poder pertence ao número, e as maiorias criam o direito e o dever.
18. Mas a oposição de tudo isto com a razão resulta suficientemente do que dissemos. Efetivamente, pretender que não há nenhum laço ente o homem ou a sociedade civil e Deus criador e, por conseguinte, supremo legislador de todas as coisas, repugna absolutamente à natureza, e não somente à natureza do homem, mas à de todo o ser criado; pois todo o efeito está necessariamente unido por algum laço à causa de que procede; e convém a toda a natureza e pertence à perfeição de cada uma que permaneça no lugar e no plano que lhe é marcado pela ordem natural, isto é, que o ser inferior se submeta e obedeça àquele que lhe é superior.
19. Mas, ainda, tal doutrina traz o maior dano, tanto ao indivíduo como à sociedade. Realmente, se o homem faz depender só e unicamente do juízo da razão humana o bem e o mal, suprime a diferença essencial entre o bem e o mal; o honesto e o desonesto já não diferem na realidade, mas somente na opinião e no juízo de cada um: o que agrada será permitido. Desde que se admita semelhante doutrina moral, que não basta para reprimir ou pacificar os movimentos desordenados da alma, dá-se acesso a todas as corrupções da vida. Nos negócios públicos, o poder de governar separa-se do princípio verdadeiro e natural que lhe dá toda a sua força para procurar o bem comum; a lei que determina o que se deve fazer e o que é necessário evitar é abandonada aos caprichos da maioria, que é o mesmo que preparar o caminho à dominação tirânica. Quando se repudia o poder de Deus sobre o homem e sobre a sociedade humana, é natural que a sociedade deixe de ter religião, e tudo o que toca à religião torna-se desde então objeto da mais completa indiferença. Armada, pois, da idéia da soberania, a multidão facilmente entrará no caminho da sedição e das desordens, e, não existindo já o freio do dever e da consciência, nada mais resta do que a força, que é bem fraca, por si só, para conter as paixões populares. Temos a prova disto nessas lutas quase diárias empenhadas contra os Socialistas e outras seitas sediciosas que trabalham há tanto tempo para arrasar o Estado até aos seus alicerces. Julguem, pois, e digam os que possuem a justa inteligência das coisas, se tais indivíduos aproveitam à liberdade e dignidade do homem, ou se não são antes dela a destruição completa.
O Liberalismo mitigado.
20. Sem dúvida, tais opiniões, espantosas pela sua mesma enormidade e sua oposição manifesta com a verdade, bem como a imensidade dos males, de que vimos elas serem causa, impedem os partidários do Liberalismo de aderirem todos a elas. Constrangidos mesmo pela força da verdade, muitos deles não hesitam em reconhecer, confessam-no até espontaneamente, que, entregando-se a tais excessos, com desprezo da verdade e da justiça, a liberdade se vicia e degenera abertamente em licença, sendo necessário, portanto, que ela seja dirigida e governada pela reta razão, e, por conseqüência, que se submeta ao direito natural e à lei divina e eterna. Mas julgam dever parar aqui, e não admitem que o homem livre deva submeter-se às leis que a Deus apraz impor-nos por uma outra via que não a razão natural.
21. Mas nisto estão absolutamente em desacordo consigo mesmos. Pois se é necessário, como eles próprios convêm (e quem poderá razoavelmente deixar de convir nisto?), se é necessário obedecer à vontade de Deus legislador, — pois o homem todo inteiro depende de Deus e deve tender para Deus, — daqui se segue que ninguém pode pôr limites ou condições à sua autoridade legislativa, sem, com isso mesmo, se colocar em oposição com a obediência devida a Deus. Ainda mais: se a razão humana se arroga a pretensão de querer determinar quais os direitos de Deus e os seus deveres para com Ele, o respeito pelas leis divinas terá nela mais aparência que realidade; e o seu juízo valerá mais que a autoridade e a providência divinas.
É, pois, necessário que a regra da nossa vida seja por nós constante e religiosamente pedida não somente à lei eterna, mas também a todas e a cada uma das leis que Deus, na sua infinita sabedoria, no seu infinito poder e pelos meios que lhe aprouveram, quis transmitir-nos e que nós podemos conhecer com segurança por sinais evidentes e não deixam nenhum lugar à dúvida. E isto tanto melhor que essas espécies de leis, tendo o mesmo princípio, o mesmo autor que a lei eterna, harmonizam-se perfeitamente com a razão e aperfeiçoam o direito natural: além de que, aí encontramos incluído o magistério do próprio Deus que, para impedir que a nossa inteligência e a nossa vontade caiam no erro, as conduz e guia a ambas com a mais benévola direção. Deixemos, pois, santa e inviolavelmente reunido aquilo que não pode nem deve ser separado, e que Deus nos encontre, em todas as coisas, segundo o ordena a própria razão natural, submissos e obedientes às suas leis.
Liberalismo do Estado.
22. Outros são um pouco mais moderados, mas sem serem mais conseqüentes consigo mesmos. Segundo estes, as leis divinas devem regular a vida e o modo de proceder dos particulares, mas não o dos Estados; é permitido, nas coisas públicas, desviar-se das ordens de Deus e legislador sem as ter em conta alguma. Donde nasce esta perniciosa conseqüência da separação da Igreja e do Estado. Mas o absurdo destas opiniões facilmente se compreende. É necessário, — a própria natureza o proclama — é necessário que a sociedade dê aos cidadãos os meios e as facilidades de passarem a sua vida segundo a honestidade, isto é, segundo as leis de Deus, pois que Deus é o princípio de toda a honestidade e de toda a justiça. Repugnaria, pois, absolutamente que o Estado pudesse desinteressar-se destas mesmas leis ou ir mesmo contra elas, fosse no que fosse.
23. Demais, aqueles que governam os povos devem certamente procurar à causa pública, pela sabedoria das suas leis, não somente as vantagens e os bens exteriores, mas também e principalmente os bens da alma. Ora, para conseguir estes bens, nada mais eficaz pode imaginar-se do que essas leis de que Deus é o autor; e, por isso, aqueles que não querem, no governo dos Estados, ter em conta alguma as leis divinas, desviam realmente o poder político da sua instituição, e da ordem prescrita pela natureza.
Mas há uma observação ainda mais importante e que Nós mesmos temos recordado mais de uma vez em outras ocasiões: e é que o poder civil e o poder sagrado, conquanto não tenham o mesmo fim e não marchem pelos mesmos caminhos, devem contudo encontrar-se algumas vezes, no desempenho das suas funções. Ambos, com efeito, exercem a sua autoridade sobre os mesmos súditos e, mais duma vez, sobre as mesmas matérias, embora sob pontos de vista diferentes. O conflito, nesta ocorrência, seria absurdo e repugnaria inteiramente à infinita sabedoria dos conselhos divinos. Deve, portanto, necessariamente haver um meio, um processo para fazer desaparecer as causas de conflitos e lutas, e estabelecer o acordo na prática. E este acordo não é sem razão que foi comparado à união que existe entre a alma e o corpo, e isto para maior vantagem de ambos, pois a separação é particularmente funesta ao corpo, porque o priva da vida.
C) CONSEQÜÊNCIAS DO LIBERALISMO.
Liberdade de culto nos particulares.
24. Mas, para evidenciar melhor estas verdades, é mister consideremos separadamente as diversas espécies de liberdades que se dão como conquistas da nossa época. — E primeiramente, a propósito dos indivíduos, examinemos esta liberdade tão contrária à virtude da religião, a liberdade de culto, como lhe chamam, liberdade que se baseia no princípio de que é lícito a cada qual professar a religião que mais lhe agrade, ou mesmo não professar nenhuma. — Mas, precisamente ao contrário, sem dúvida alguma, entre todos os deveres do homem, o maior e o mais santo é aquele que ordena ao homem que renda a Deus um culto de piedade e de religião. E este dever não é senão uma conseqüência do fato de nós estarmos pela vontade e providencia de Deus, e de que, saídos d’Ele, devemos voltar a Ele.
25. Deve-se acrescentar que nenhuma virtude digna deste nome pode existir sem a religião, pois a virtude moral é aquela cujos atos têm por objeto tudo o que conduz a Deus considerado como supremo e soberano bem do homem; e por isso é que a religião, que “pratica os atos tendo por fim direto e imediato a honra divina” (S. Th. 2-2, q. 81, a 6), é a rainha e ao mesmo tempo a regra de todas as virtudes. E se se pergunta qual, entre todas essas religiões opostas que têm curso, se deve seguir com exclusão das outras, a razão e a natureza unem-se para nos responder: a que Deus prescreveu e que é fácil de distinguir, graças a certos sinais exteriores pelos quais a divina Providência a quis tornar reconhecível, pois que em coisa de tanta importância o erro acarretaria conseqüências muito desastrosas. É por isso que oferecer ao homem a liberdade de que falamos, é dar-lhe o poder de desvirtuar ou abandonar impunemente o mais santo dos deveres, afastando-se do bem imutável, a fim de se voltar para o mal. Isto, já o dissemos, não é liberdade, mas uma depravação da liberdade, e uma escravidão da alma na abjeção do pecado.
Liberdade de culto no Estado.
26. Encarada sob o ponto de vista social, esta mesma liberdade quer que o Estado não renda culto algum a Deus, ou que não autorize nenhum culto público; que nenhuma religião seja preferida a outra, que todas sejam consideradas como tendo as mesmos direitos, sem mesmo ter atenção para com o povo, até quando esse mesmo povo faz profissão de catolicismo. Mas, para que assim fosse justo, seria necessário que realmente a comunidade civil não tivesse nenhum dever para com Deus, ou que, tendo-o, pudesse impunemente afastar-se dele: duas coisas manifestamente falsas. Com efeito, não se pode pôr em dúvida que a reunião dos homens em sociedade seja obra da vontade de Deus; e isto quer se considere em seus membros, na sua forma que é autoridade, na sua causa, ou em número e importância das vantagens que ela procura ao homem. Foi Deus quem fez o homem para a sociedade e o uniu aos seus semelhantes, a fim de que as necessidades da sua natureza, às quais os seus esforços isolados não poderiam dar satisfação, a possam encontrar na comunidade. Eis aí por que a sociedade civil como sociedade deve necessariamente reconhecer Deus como seu princípio e seu autor, e, por conseguinte, render ao seu poder e à sua autoridade a homenagem do seu culto. Veda-o a justiça, e veda-o a razão que o Estado seja ateu, ou, o que viria a dar no ateísmo, esteja animado a respeito de todas as religiões, como se diz, das mesmas disposições e conceder-lhes indistintamente os mesmos direitos.
27. Visto, pois, que é necessário professar uma religião na sociedade, deve-se professar a única que é verdadeira e que se reconhece, sem dificuldade, pelo menos nos países católicos, pelos sinais de verdade que com tão vivo fulgor ostenta em si mesma. Esta religião, os chefes de Estado a devem pois conservar e proteger, se querem, como é obrigação sua, prover prudente e utilmente aos interesses da comunidade. Pois o poder público foi estabelecido para utilidade daqueles que são governados, e conquanto ele não tenha por fim próximo senão conduzir os cidadãos à prosperidade desta vida terrestre é, contudo, para ele um dever não diminuir, mas pelo contrário aumentar, para o homem, a faculdade de atingir esse bem supremo e soberano, no qual consiste a eterna felicidade dos homens: o que se torna impossível sem a religião.
28. Mas tudo isso já Nós o dissemos detalhadamente em outra parte. A única observação, que agora queremos fazer, é que uma liberdade deste gênero é muito prejudicial à liberdade verdadeira, quer dos governantes quer dos governados. A religião, pelo contrário, é-lhe maravilhosamente útil, porque faz remontar ao próprio Deus a origem primária do poder; porque impõe com gravíssima autoridade aos príncipes a obrigação de não esquecerem os seus deveres, e de conduzirem os povos com bondade e quase com um amor paternal.
Por outro lado, ela recomenda aos cidadãos a submissão do poder legítimo como aos representantes de Deus; une-os ao Chefe do Estado pelos laços, não somente de obediência, mas do respeito e do amor, proibindo-lhes a revolta e todas as empresas que possam perturbar a ordem e a tranqüilidade do Estado, e que, em resumo, dão ocasião de reprimir com restrições mais fortes a liberdade dos cidadãos. Nada dizemos dos serviços prestados pela religião aos bons costumes, e pelos bons costumes à própria liberdade. Pois a razão o prova e a história o confirma: a liberdade, a prosperidade e o poder duma nação aumentam em proporção da sua moralidade.
Liberdade da palavra e da imprensa.
29. E agora continuemos estas considerações a respeito da liberdade de exprimir pela palavra ou pela imprensa tudo o que se quiser. Se esta liberdade não for justamente temperada, se ultrapassar os devidos limites e medidas, desnecessário é dizer que tal liberdade não é seguramente um direito. Pois o direito é uma faculdade moral, e, como dissemos e como se não pode deixar de repetir, seria absurdo crer que esta faculdade cabe naturalmente, e sem distinção nem discernimento à verdade e à mentira, ao bem e ao mal. A verdade e o bem há o direito de os propagar no Estado com liberdade prudente, a fim de que possam aproveitar o maior número; mas as doutrinas mentirosas, que são para o espírito a peste mais fatal, assim como os vícios que corrompem o coração e os costumes, é justo que a autoridade pública empregue toda a sua solicitude para os reprimir, a fim de impedir que o mal alastre para ruína da sociedade.
30. Os extravios dum espírito licencioso que, para a multidão ignorante, se convertem facilmente em verdadeira opressão, devem justamente ser punidos pela autoridade das leis, não menos que os atentados da violência cometidos contra os fracos. E esta repressão é tanto mais necessária, quanto é impossível ou dificílimo à parte, sem dúvida, mais numerosa da população precaver-se contra os artifícios de estilo e as sutilezas de dialética, principalmente quando tudo isso lisonjeia as paixões. Concedei a todos a liberdade de falar e escrever, e nada será poupado, nem mesmo as verdades primárias, esses grandes princípios naturais que se devem considerar como um nobre patrimônio comum a toda a humanidade. Assim, a verdade é, pouco e pouco, invadida pelas trevas e, o que muitas vezes sucede, estabelece-se com facilidade a dominação dos erros mais perniciosos e mais diversos. Tudo o que a licença então ganha perde a liberdade; pois ver-se-á sempre a liberdade crescer e consolidar-se à medida que a licença seja mais refreada.
31. Mas se se trata de matérias livres, que Deus deixou entregues às discussões dos homens, a todos é permitido emitir sobre elas a sua opinião e exprimi-la livremente. A natureza não se opõe a isto, porque com esta liberdade os homens não são levados a oprimir a verdade, antes é ela muitas vezes ocasião de a procurar e faze-la conhecer.
  
Falsa liberdade de ensino.
  
32. Quanto ao que chamam liberdade de ensino, também não é preciso julga-la por modo diverso. Só a verdade deve penetrar nas almas, pois que é só nela que as naturezas inteligentes encontram o seu bem, o seu fim, a sua perfeição. Por isso, o ensino só deve ter por objeto coisas verdadeiras, e isto quer se dirija aos ignorantes quer aos sábios, a fim de que leve a uns o conhecimento da verdade, e aos outros a fortaleça. Por este motivo, o dever de todo aquele que se dedica ao ensino é, sem contradição, extirpar o erro dos espíritos e opor fortes barreiras à invasão das falsas opiniões. É, pois, evidente que a liberdade de que estamos tratando, arrogando-se o direito de tudo ensinar a seu modo, está em contradição flagrante com a razão e nasceu para produzir um transtorno completo nos espíritos. O poder público não pode consentir tal licença na sociedade senão com desprezo do seu dever. Tanto mais verdade é isto, que todos sabem de quanto peso é para os ouvintes a autoridade do professor, e quão raro é que um discípulo possa julgar pó si mesmo da verdade do ensino do mestre.
Conceito da verdadeira liberdade de ensino.
33. Eis aí, por que também esta liberdade, para que seja honesta, tem necessidade de ser restringida em determinados limites. É, pois, necessário que a arte do ensino não possa impunemente converter-se num instrumento de corrupção. Ora, a verdade, que deve ser o único objeto de ensino, é de duas espécies: a verdade natural e a sobrenatural. As verdades naturais, às quais pertencem os princípios da natureza e as conclusões próximas que deles deduz a razão, constituem como que o patrimônio comum do gênero humano; são como que o sólido fundamento sobre que assentam os costumes, a justiça, a religião e a própria existência da sociedade humana; e seria desde logo a maior das impiedades, a mais desumana das loucuras, deixa-las violar e destruir impunemente. Mas é necessário pôr não menos escrúpulo em conservar o magno e sagrado tesouro das verdades que o próprio Deus nos fez conhecer. Por um grande número de argumentos luminosos, muitas vezes repetidos pelos apologistas, foram estabelecidos certos pontos principais de doutrina, por exemplo: há uma revelação divina; o Filho único de Deus fez-se homem para dar testemunho da verdade; por Ele foi fundada uma sociedade perfeita, isto é, a Igreja, de que Ele mesmo é o Chefe e com a qual prometeu estar até a consumação dos séculos.
34. A esta sociedade quis Ele confiar todas as verdades que ensinara, com a missão de as guardar, de as desenvolver com autoridade legítima; e, ao mesmo temo, ordenou a todas as nações que obedecessem aos ensinamentos da sua Igreja como a Ele mesmo, sob pena de perda eterna para aqueles que isto transgredissem. Daqui ressalta claramente que o melhor e mais seguro mestre, para o homem, é Deus, fonte e principio de toda a verdade; é o Filho único que vive no seio do Pai, caminho, verdade, vida e luz verdadeira que esclarece todos os homens; e cujos ensinamentos devem ter por discípulos todos os homens: E eles serão todos ensinados por Deus (Jo 6, 45). Mas para a fé e regra dos costumes Deus fez a Igreja partícipe do seu divino privilegio de infalibilidade. Eis ai por que ela é grande e segura mestra dos homens e tem em si um direito inviolável à liberdade de ensinar. E, de fato, a Igreja, que nos ensinamentos recebidos do Céu encontra o seu próprio sustentáculo, nada tem tido tanto a peito como desempenhar, religiosamente a missão que Deus lhe confiou, e, sem se deixar intimidar pelas dificuldades que, por toda parte, a cercam, não tem cessado em tempo algum de combater pela liberdade do seu magistério. Foi por este meio que todo o mundo, liberto da miséria das suas superstições, encontrou na sabedoria cristã a sua regeneração.
35. Mas como a própria razão o ensina claramente: entre as verdades divinamente reveladas e as verdades naturais não pode haver real oposição, de sorte que toda a doutrina que contradiga àquelas será necessariamente falsa, segue-se que o divino magistério da Igreja, longe de pôr obstáculos ao amor do saber e ao desenvolvimento das ciências, ou de retardar por qualquer modo o progresso da civilização, é, pelo contrário, para estas coisas, uma vivíssima luz e uma segura proteção. E, por esta mesma razão, o próprio aperfeiçoamento da liberdade humana aproveita não pouco com a sua influência, segundo a máxima de Jesus Cristo Salvador, que o homem se torna livre pela verdade: Conhecereis a verdade, e a verdade vos fará livres (Jo 8, 32).
Não há, pois, motivo para que a genuína liberdade se indigne e a ciência verdadeira se irrite contra as leis justas e necessárias, que devem regular os ensinamentos humanos, como o reclamam acordes a Igreja e a razão. Há mais: e é, que a Igreja, dirigindo principal e especialmente a sua atividade para a defesa da fé cristã, aplica-se também em favorecer o gosto de bons estudos em si mesmos têm alguma coisa de bom, de louvável, de desejável; e, demais, toda a ciência, que é fruto da reta razão e corresponde à realidade das coisas, é duma utilidade não medíocre até para esclarecer as verdades reveladas por Deus. E de fato, que imensos serviços a Igreja não prestou com o admirável cuidado com que conservou os monumentos da ciência antiga, com os asilos que abriu, por toda parte, às ciências, com o estímulo que sempre deu a todos os progressos, favorecendo dum modo particular as próprias artes que são a glória da civilização da nossa época.
36. Enfim, é necessário não esquecer que ainda há imenso campo aberto em que a atividade humana pode dilatar-se e exercer-se livremente a razão: referimo-Nos às matérias que não têm uma conexão necessária com a doutrina da fé e dos costumes cristãos, ou sobre as quais a Igreja, não usando da sua autoridade, deixa aos sábios toda a liberdade de suas opiniões. Por estas considerações se vê de que espécie e de que qualidade e, neste particular, a verdade que os partidários do liberalismo reclamam e proclamam com igual ardor. Por um lado, atribuem a si mesmos, assim como ao Estado, uma licença tal que não há opinião, por mais perversa que seja, à qual não abram a porta e não dêem livre passagem; por outro, suscitam à Igreja obstáculos sobre obstáculos, encerrando a liberdade dela nos limites mais estreitos que podem, quando aliás nenhum inconveniente há a recear dos ensinamentos da Igreja, e antes se devem esperar deles as maiores vantagens.
Liberdade de consciência.
  
37. Uma outra liberdade que também muito alto se proclama, é aquela a que dão o nome de liberdade de consciência. Se por isso se entende que cada qual pode indiferentemente, a seu bel-prazer, prestar ou deixar de prestar culto a Deus, os argumentos acima apresentados bastam para a sua refutação. Mas pode-se tomar no sentido de que o homem, no Estado tem o direito de seguir, segundo a consciência do seu dever, a vontade de Deus, e de cumprir os seus preceitos, sem que ninguém possa impedi-lo. Esta liberdade verdadeira, esta liberdade digna dos filhos de Deus, que protege tão gloriosamente a dignidade da pessoa humana, está acima de toda a opressão e de toda a violência, e foi sempre o objeto dos votos da Igreja e do seu particular afeto. Foi esta liberdade que os apóstolos reivindicaram com tanta constância, que os apologistas têm defendido nos seus escritos, que uma multidão inumerável de mártires consagrou com o seu sangue. E eles tiveram razão: o grande e justíssimo poder de Deus sobre os homens, e, por outro lado, o grande e supremo dever dos homens para com Deus encontram ambos nesta liberdade cristã um brilhante testemunho.
38. Ela nada tem de comum com disposições facciosas e rebeldes, e de nenhum modo se poderá apresenta-lo como refratária à obediência devida ao poder público; pois ordenar e exigir obediência às leis é um direito do poder humano somente enquanto este não está em desacordo com o poder divino, e se contém dentro dos limites que Deus lhe marcou. Ora, quando se dá uma ordem que está em aberta contradição com a vontade divina, então se afasta muito desses limites, e põe-se em conflito com a autoridade divina: portanto, é então justo não obedecer.
39. Mas os partidários do Liberalismo, que atribuem ao Estado um poder despótico e sem limites e proclamam que não é preciso ter Deus em conta alguma no modo de nos conduzirmos na vida, desconhecem absolutamente esta liberdade de que falamos tão intimamente unida à honestidade e à religião; e tudo quanto se faz para a conservar, eles o consideram como feito em detrimento e contra o Estado. Se o que dizem fosse verdade, não haveria dominação, por tirânica que fosse, que se não devesse aceitar e sofrer.
D) A TOLERÂNCIA DA IGREJA.
  
40. O mais vivo desejo da Igreja seria, sem dúvida, ver penetrarem, de fato e em prática, em todas as ordens do Estado estes princípios cristãos que acabamos de expor sumariamente. Pois eles possuem uma eficácia maravilhosa para curar os males do tempo presente, esses males cujo número e gravidade se não podem dissimular, nascidos em grande parte dessas liberdades tão decantadas, e nas quais se havia querido ver encerrar os germes da salvação e da glória. Esta esperança foi desmentida pelos fatos. Em lugar de frutos doces e salutares vieram frutos amargos e envenenados. Se se procura o remédio, busque-se restabelecimento de sãs doutrinas, únicas de que se pode esperar confiadamente a conservação da ordem e, por isso mesmo, a garantia da verdadeira liberdade.
41. Todavia, em sua apreciação maternal, a Igreja tem em conta o peso acabrunhador da fraqueza humana e não ignora o movimento que na nossa época arrasta os espíritos e as coisas. Por estes motivos, não concedendo direitos senão àquilo que se é verdadeiro e honesto, a Igreja ainda assim não se opõe à tolerância do que os poderes públicos crêem poder usar a respeito de certas coisas contrárias à verdade e à justiça, em face dum mal maior a evitar, ou dum maior bem a obter ou conservar. O próprio Deus em sua providência, conquanto infinitamente bom e onipotente, permite não obstante a existência de certos males no mundo, ou seja para não impedir bens maiores ou seja para evitar maiores males. Convém, quanto ao governo dos Estados, imitar Aquele que governa o mundo. Mais ainda: reconhecendo-se impotente para impedir todos os males particulares, a autoridade dos homens deve permitir e deixar impunes muitas coisas que não obstante atraem com justo motivo a vindica da Providencia divina (S. Agost. De lib. arb., lib. I, c. 6, n. 14).
42. Todavia, se nestas conjunturas, com a mira no bem comum e só por este motivo, a lei dos homens pode e mesmo deve tolerar o mal, contudo nunca ela pode nem deve aprova-lo nem quere-lo em si mesmo, pois que o mal, sendo de si mesmo a privação do bem, é oposto ao bem comum que o legislador deve querer e defender do melhor modo que possa. E ainda nisto a lei humana deve propor-se imitar a Deus que, deixando existir o mal no mundo, não quer nem que o mal suceda, nem que o mal não suceda, mas quer permitir que o mal suceda. E isto é bom (S. Th. p. I, q. 19, ª 9, ad 3). Esta sentença do Doutor Angélico contém, numa fórmula breve, toda a doutrina sobre a tolerância do mal. Mas é necessário reconhecer, para que o nosso juízo seja exato, que quanto mais preciso for tolerar o mal em um Estado, mais longe estão da perfeição as condições desse Estado; e, além disto, que a tolerância do mal, pertencendo aos princípios da prudência política, deve ser rigorosamente circunscrita aos limites exigidos pela sua razão de ser, isto é, pela salvação pública. E por isso, se ela é nociva à salvação pública ou se é para o Estado causa dum mal maior, a conseqüência é que deixa de ser lícita, porque nestas condições falta a razão do bem. Mas se, em vista duma condição particular do Estado, a Igreja condescende com certas liberdades modernas, não é porque as prefira em si mesmas,mas porque julga conveniente permiti-las; melhorada a situação, usará evidentemente da sua liberdade, empregando todos os meios, persuasões, exortações e rogos, para desempenhar, como é seu dever, a missão que recebeu de Deus: proporcionar aos homens a salvação eterna. Em todo o caso fica sempre de pé uma verdade, e é que essa liberdade concedida indiferentemente a todos e para tudo, não é desejável por si mesma, como muitas vezes o termo repetido, pois repugna a razão que o falso e o verdadeiro tenham os mesmos direitos.
Intolerância do Liberalismo.
43. E no que toca à tolerância, é estranho ver quanto se distanciam da equidade e da prudência da Igreja aqueles que professam o Liberalismo. Com efeito, concedendo aos cidadãos, em todos os pontos de que acabamos de falar, uma liberdade sem limites, ultrapassam dum salto a medida, e chegam ao ponto em que parece não haver mais atenções com a virtude e a verdade do que com o erro e o vício. E quando a Igreja, coluna e sustentáculo da verdade, mestra incorruptível dos costumes, crê contra uma tolerância tão cheia de desordens e de excessos, e impedir o criminoso uso dela, acusam-na de faltar à paciência e à delicadeza. Procedendo assim, nem sequer advertem que fazem um crime daquilo precisamente que é mérito. De resto muitas vezes sucede que estes grandes defensores da tolerância são duros e intransigentes na prática, quando se trata do Catolicismo: pródigos de liberdades para todos, recusam a cada passo deixar à Igreja a sua liberdade.
E) RECAPITULANDO.
Origens do Liberalismo. Suas formas.
44. Mas para recapitular com brevidade, e para maior clareza, todo este discurso com suas conseqüências, Nós dizemos, em resumo, que o homem deve necessariamente permanecer todo inteiro em uma dependência real e incessante a respeito de Deus, e que, por conseqüência, é absolutamente impossível compreender a liberdade do homem sem a submissão a Deus e a sujeição à sua vontade. Negar esta soberania de Deus ou recusar a submissão a ela, não é modo de agir de homem livre, mas de quem abusa da liberdade com a revolta; e é precisamente duma tal disposição da alma que se constitui e nasce o vício do Liberalismo. De resto podem-se distinguir muitas espécies de liberalismo, porque existem para a vontade mais duma forma e mais dum grau na recusa da obediência devida a Deus ou àqueles que participam da sua autoridade divina.
45. A insurreição completa contra o império supremo de Deus e recusar-lhe absolutamente toda a obediência, quer seja na vida pública, quer na vida particular e doméstica, é a um tempo, sem dúvida alguma, a maior depravação da liberdade e a pior espécie de liberalismo. É sobre ela que devem cair, sem restrição, todas as censuras que até aqui temos formulado.
46. Imediatamente depois vem o sistema daqueles que, concedendo que se deve depender de Deus, autor e senhor do universo, pois que toda a natureza é regida pela sua Providência, ousam repudiar as regras da fé e da moral que, ultrapassando a ordem da natureza, nos vêm da própria autoridade de Deus; ou pretendem, pelo menos, que não é preciso tê-las em conta, principalmente nos negócios públicos do Estado. Qual a gravidade do seu erro e quão pouco de acordo estão consigo mesmos, também o vimos acima. É esta doutrina que deriva, como da sua fonte e princípio, o pernicioso erro da separação da Igreja e do Estado; quando, pelo contrário, é manifesto que estes dois poderes, embora diferentes na sua missão e na sua dignidade, devem todavia entender-se na concórdia da sua ação e na reciprocidade dos seus bons ofícios.
47. A este erro, como a um gênero, se liga uma dupla opinião. — Muitos, com efeito, querem uma separação radical e total entre a Igreja e o Estado: consideram estes que, em tudo o que diz respeito ao governo da sociedade humana, nas instituições, nos costumes, nas leis, nas funções públicas, na instrução da juventude, se não deve fazer caso da Igreja como se ela não existisse; apenas deixam aos membros individuais da sociedade a faculdade de cumprirem particularmente, se quiserem, os deveres da religião. Contra estes conservam toda a sua força os argumentos pelos quais refutamos a opinião da separação da Igreja e do Estado, com a agravante de que é completamente absurdo que a Igreja seja, ao mesmo tempo, respeitada pelo cidadão e desprezada pelo Estado.
48. Os outros não põem em dúvida a existência da Igreja, o que lhes seria impossível, mas tiram-lhe o caráter e os direitos próprios duma sociedade perfeita, e querem que o seu poder, privado de toda a autoridade legislativa, judicial e coercitiva, se limite a dirigir pela exortação e pela persuasão aqueles que de bom grado e por sua própria vontade se submetem a ela. E assim, nesta teoria, o caráter desta divina sociedade é completamente desvirtuado, a sua autoridade, o seu magistério, toda a sua ação é diminuída e restringida, ao mesmo temo que a ação e a autoridade do poder civil é por eles exagerada até ao ponto de quererem que a Igreja de Deus, como qualquer outra associação voluntária, seja colocada sob a dependência e dominação do Estado. — Para os convencer de erro, os apologistas têm empregado poderosos argumentos que Nós mesmo não deixamos no olvido, deles se conclui que, pela vontade de Deus, a Igreja possui todas as qualidades e todos os direitos que caracterizam uma sociedade legítima, soberana e, em todos os pontos, perfeita.
49. Muitos, finalmente, não aprovam esta separação da Igreja e do Estado, mas julgam que é necessário induzir a Igreja a ceder às circunstancias, fazer com que ela se acomode e se preste ao que reclama a prudência destes tempos no governo das sociedades. Esta opinião é boa quando entendida dum certo modo eqüitativo de proceder, conforme com a verdade e com a justiça, a saber: que a Igreja, na expectativa certa dum grande bem, se mostre indulgente e conceda às circunstâncias do tempo o que pode conceder sem violar a santidade da sua missão. Mas sucede o contrário com as práticas e doutrinas que a relaxação dos costumes e os erros correntes introduziram contra o direito. Não pode haver época alguma sem religião, verdade e justiça; e como estas grandes e santas coisas Deus as colocou sob a guarda da Igreja, nada há tão estranho como pretender que deixe passar sem reparo o que é falso ou injusto, ou que se torne conivente com o que prejudicar a religião.
Conclusões da doutrina católica.
50. Destas considerações segue-se, portanto, que de nenhum modo é permitido pedir, defender ou conceder sem discernimento a liberdade de pensamento, de imprensa, de ensino, de religião, como se fossem outros tantos direitos que a natureza conferisse ao homem. Se em verdade a natureza os houvesse conferido, haveria o direito de nos subtrairmos à soberania de Deus, e nenhuma lei poderia moderar a liberdade humana. — Segue-se também que estas diversas espécies de liberdade podem, por justas causas, ser toleradas, contanto que uma justa moderação as impeça de degenerarem até à licença e à desordem. — Finalmente, nos países em que os usos puseram estas liberdades em vigor, os cidadãos devem servir-se delas para fazer o bem e ter a respeito delas os mesmos sentimentos que a Igreja tem; porque uma liberdade não se deve reputar legítima senão quando aumenta a nossa faculdade de fazer o bem. Fora disto, nunca.
51. Quando se está sob o domínio ou a ameaça dum governo que tem a sociedade debaixo da pressão duma violência injusta ou que priva a Igreja da liberdade legítima, é permitido buscar outra organização política sob a qual se possa proceder com liberdade. Com efeito, neste caso o que se reivindica não é essa liberdade sem medida e sem regra, mas sim um certo alívio para bem de todos; e o que se procura unicamente é chegar a que, onde toda a licença é dada ao mal, não se ponham obstáculos à prática do bem.
52. Além disto, preferir para o Estado uma constituição temperada pelo elemento democrático não é em si contrária ao dever, com a condição todavia de que se respeite a doutrina católica sobre a origem e o exercício do poder público. Das diversas formas de governo, contanto que sejam em si mesmas aptas para proporcionar o bem aos cidadãos, a Igreja não rejeita nenhuma, mas quer, e a natureza põe-se de acordo com ela para o exigir, que seja constituída de tal modo que não viole o direito de ninguém e respeite particularmente os direitos da Igreja.
53. É louvável tomar parte na administração dos negócios públicos, a menos que em certos lugares, por circunstâncias particulares de coisas e de tempo, se não imponha outro modo de proceder. A Igreja mesma aprova que todos unam os seus esforços para o bem comum, e que cada um, segundo a sua possibilidade, trabalhe para a defesa, conservação e aumento da coisa pública.
54. A Igreja também não condena que se queira libertar o país do poder estrangeiro ou dum déspota, contanto que isto se possa fazer sem violar a justiça. Finalmente, muito menos ela censura aqueles que trabalham para dar aos municípios o beneficio de se regerem pelas suas próprias leis, e aos cidadãos todas as facilidades para o aumento do seu bem-estar. Para todas as liberdades civis isentas de excesso, a Igreja teve sempre o costume de ser uma fidelíssima protetora, o que é atestado principalmente pelas cidades italianas, que encontraram sob o regime municipal a prosperidade, o poder e a glória, quando a influência salutar da Igreja, sem encontrar oposição alguma, penetrava todas as partes do corpo social.
Exortação final.
55. Estes ensinamentos, que, inspirados pela fé e pela razão, o dever do Nosso cargo apostólico Nos levou a transmitir-vos, Veneráveis Irmãos, serão úteis a um grande número, temos nisto confiança, graças principalmente à união dos vossos esforços com os Nossos. Pela Nossa parte, na humildade do Nosso coração, elevamos para Deus as Nossas vistas suplicantes, rogando-lhe instantemente que se digne espalhar entre os homens a luz da sua sabedoria e do seu conselho, a fim de que, pela virtude destas graças, eles possam ver a verdade em pontos duma tal importância, e, conseqüentes, com uma inquebrantável constância saibam conformar, em todos os tempos, a sua vida particular e pública com a mesma verdade.
Como penhor dos favores celestiais e em prova da Nossa benevolência, Nós vos concedemos, com um terno afeto, a Vós, Veneráveis Irmãos, assim como ao clero e ao povo de que cada um de vós tem a direção, a Bênção Apostólica no Senhor.
Dada em Roma, junto de S. Pedro, a 20 de junho o ano de 1888, undécimo do Nosso Pontificado.

Fonte: https://www.capela.org.br/Magisterio/LeaoXIII/libertas.htm.

S.S. Pio XII – Problemas Morais nos Estilos da Moda

Alocução do Papa Pio XII ao Congresso da “União Latina de Alta-costura”[1]

Amados filhos e filhas, promotores e associados da “União Latina de Alta-costura”, Nós cordialmente estendemos a vocês Nossas paternais boas-vindas.
Nós vimos ser necessário vir até aqui para dar testemunho da sua filial devoção e, ao mesmo tempo, buscar os favores do céu para sua União. Desde o seu início, vocês se colocaram sob a proteção d’Aquele cuja glória deve ser o fim de toda atividade humana, até aquelas que são aparentemente profanas, de acordo com o preceito do Apóstolo dos Gentios: “Portanto, quer comais quer bebais ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus.” (I Cor 10, 31)
Um delicado e complexo problema

Vocês se propõem a examinar do ponto de vista cristão e com intenção cristã um problema que é, por sua vez, delicado e complexo. O seu aspecto moral não pode ser ignorado. O problema da moda, especialmente da moda feminina, é constantemente objeto de atenção e ansiedade por aqueles cujas tarefas são, pela razão de seus deveres da família, na sociedade e na Igreja, preservar as almas das armadilhas da corrupção e proteger toda a comunidade da decadência moral.
É correto e apropriado que suas generosas intenções devam receber Nossa gratidão e a da Igreja, e que sua União, nascida e inspirada por um sólido senso religioso e cívico, receba Nosso fervente desejo para a realização, através de uma inspirada autodisciplina dos desenhistas da moda, da dupla meta expressa nos seus estatutos: melhorar a condição deste importante setor da vida pública, e ajudar a elevar a moda ao nível de um instrumento e expressão de uma bem-intencionada civilidade.
Porque queremos encorajar tão digno empreendimento, Nós, de bom grado, consentimos em seu pedido de que dirijamos nossos pensamentos a vocês, particularmente na formulação própria do problema, e, mais importante que tudo, em seus aspectos morais. Nós também devemos fazer algumas sugestões práticas que podem garantir à União uma reconhecida autoridade neste campo altamente controverso.

I. ASPECTOS GERAIS DA MODA
Seguindo o conselho de uma antiga sabedoria que encontra nos propósitos das coisas tanto o último critério para toda avaliação teórica como a certeza dos princípios morais, será útil recordar tais objetivos que os homens sempre estabeleceram para si mesmos quanto ao que concerne à sua veste.

As três razões para o vestir

Sem dúvida o vestir obedece ao familiar requerimento de higiene, de decência, e de adorno. Estas são três necessidades são tão profundamente enraizadas na natureza que elas não podem ser ignoradas ou negadas sem provocar hostilidade e preconceito. Elas são necessárias hoje como o foram ontem; são encontradas entre quase todos os povos; podem ser vistas em cada estágio da ampla escala na qual a necessidade natural de vestir-se é historicamente e etimologicamente manifestada.
É importante notar a estrita e estreita interdependência que une estas três necessidades, mesmo vindo de três diferentes fontes. A primeira é derivada da natureza física do homem; a segunda da sua natureza espiritual; a terceira da sua natureza psicológica e artística.

… Higiene

Os requerimentos de higiene para o vestir tratam principalmente do clima, de sua variação e de outros fatores externos como possíveis causas de desconforto ou de enfermidade. Da interdependência citada acima se segue que as razões higiênicas – ou antes pretextos – não podem servir para justificar uma deplorável licença, especialmente em público, à parte os casos excepcionais de comprovada necessidade. Mas, mesmo nestes casos, toda alma bem-educada seria incapaz de evitar um sentimento involuntário de confusão, refletido exteriormente pelo natural rubor.
Da mesma forma, uma maneira de vestir que é prejudicial à saúde – e há não poucos exemplos disso na história dos estilos – não pode ser considerada legitimada pelo pretexto da beleza. Por outro lado, a regra comum de decência deve ceder espaço às necessidades de uma cura médica que, mesmo que pareçam violá-la, de fato a respeitam, quando todas as precauções morais são empregadas.

… Decência

Igualmente óbvio como origem e propósito do vestir é o requerimento natural de decência, entendido tanto no sentido amplo, que inclui uma consideração apropriada para a sensibilidade dos outros em face de objetos que são de má aparência, ou, acima de tudo, como defesa da honestidade moral e um escudo contra a sensualidade desordenada.
A estranha opinião que atribui o senso de modéstia a um tipo de educação ou a outro, e até considera a modéstia uma deformação conceptual de uma inocente realidade, um falso produto da civilização, um estímulo à desonestidade e fonte de hipocrisia, não é suportada por nenhuma válida razão. Pelo contrário, ela encontra explícita condenação no repugnante resultado com que são vistos por aqueles que ousam adotar este ponto de vista. Então a solidez do senso comum, manifestada no uso universal, é confirmada.
A decência natural no seu sentido moral estrito, qualquer que seja sua origem, é fundada na tendência inata e mais ou menos consciente de toda pessoa a defender os seus bens físicos de desejos indiscriminados dos outros, de forma que ele os reserve, com prudente escolha das circunstâncias, àqueles sábios objetivos do Criador que Ele mesmo colocou sob a proteção da castidade e da modéstia.
Esta segunda virtude, a modéstia – a própria palavra “modéstia” vem de modus, uma medida ou limite –, provavelmente expressa melhor a função de governar e dominar as paixões, especialmente as paixões sensuais. Ela é o baluarte natural da castidade. É seu baluarte natural, porque modera os atos que estão estreitamente conectados com o próprio objeto da castidade.
A modéstia faz o homem escutar seu alarme, como uma sentinela, desde o momento em que ele adquire o uso da razão, mesmo antes que ele aprenda toda a mensagem e propósito da castidade. A modéstia o acompanha em toda a sua vida e demanda dele que certos atos, que são bons em si mesmos porque são divinamente estabelecidos, devam ser protegidos por um discreto véu de sombra e de silêncio reservado, de modo a conferir o respeito devido à dignidade do seu grande propósito. É justo então que a modéstia, sendo a depositária de tão preciosa possessão, deva reclamar para si mesma uma autoridade prevalecente sobre qualquer outra tendência e todo capricho, e deva presidir à determinação de modas nas roupas.

… E Adorno

E aqui chegamos ao terceiro propósito do vestir, do qual a moda tira sua origem mais diretamente, e que responde a uma necessidade inata, sentida mais pela mulher, de melhorar a beleza e a dignidade da pessoa com os mesmos meios que são capazes de satisfazer aos outros dois objetivos.
Para evitar a restrição do objetivo deste terceiro requerimento à mera beleza física, e, ainda mais, para evitar associar a moda com a luxúria sedutora como sua primeira e única razão, o termo adorno é preferível ao de embelezamento.
A propensão a adornar-se a si mesmo claramente deriva da natureza, e por isso é legítima.
Acima da função da vestimenta que esconde imperfeições físicas, os jovens querem roupas que tenham a atração e o esplendor que cantam os felizes temas da primavera da vida, e que facilitam, em harmonia com as regras da modéstia, os prerrequisitos psicológicos necessários para a formação de novas famílias. Ao mesmo tempo, aqueles com idade madura buscam obter a partir de roupas apropriadas uma aura de dignidade, seriedade e serena felicidade.
Nestes casos em que o objetivo é melhorar a beleza moral da pessoa, o estilo de roupa seria quase como um disfarce para a beleza física na sombra austera do ocultamento, distraindo a atenção dos sentidos, e concentrando a reflexão no espírito.

A linguagem do vestir

Considerado neste amplo aspecto, o vestir tem a sua própria linguagem multiforme e eficaz. Às vezes é uma interpretação espontânea e fiel dos sentimentos e dos costumes; outras vezes o vestir é convencional, manipulado e, por isso, dificilmente sincero.
O vestir expressa alegria e tristeza, autoridade e poder, orgulho e simplicidade, riqueza e pobreza, o sagrado e o profano. A forma específica desta expressão depende da tradição da cultura de um povo particular; ele muda mais lentamente, de forma que instituições, personagens e os sentimentos que os estilos interpretam são mais estáveis.

A natureza da “moda”

A moda – uma antiga arte de origem incerta, que se torna complexa pelos fatores psicológicos e sociais envolvidos – dedica-se expressamente a melhorar a beleza física. Neste momento, a moda alcançou indisputável importância na vida pública, seja como uma expressão estética dos costumes, seja como uma interpretação de uma demanda pública e um ponto central de substanciais interesses econômicos.
Uma profunda observação do fenômeno da moda revelará que ele não é somente extravagante na sua forma, mas também o ponto de união de diferentes fatores psicológicos e morais como gosto pela beleza, sede pela novidade, afirmação da personalidade e intolerância da monotonia, não menos que luxúria, ambição e vaidade.
A moda é de fato elegância, condicionada, no entanto, pela constante mudança, de tal forma que sua própria instabilidade garante uma constante e distintiva mudança do que está na moda, que agora se tornou sazonal – mudanças que são lentas nas linhas básicas, mas extremamente rápidas em variações secundárias – e parece ser um desejo de superar o passado. Isto ainda é facilitado pelo frenético caráter da era presente, que tem tremenda capacidade de destruir, em curto período de tempo, tudo o que tenha como objetivo satisfazer a fantasia e os sentidos.
É compreensível que novas gerações projetem seu próprio futuro – um sonho diferente e melhor que os de seus pais – sentindo a necessidade de desapegar-se daquelas formas, não apenas nas roupas, mas também nos objetos e ornamentos, que obviamente lembram um estilo de vida que elas desejam superar. Mas a extrema instabilidade dos estilos dos dias atuais é determinada acima de tudo pelo querer dos fabricantes e guias, que têm à sua disposição tais meios, desconhecidos no passado, como uma enorme e variada produção têxtil, a fertilidade inventiva dos desenhistas de moda, e um meio fácil de “lançar” modas na imprensa, nos cinemas, na televisão, e nas exposições e shows de moda.
A rapidez da mudança é estimulada ainda por um tipo de silenciosa competição, não realmente nova, entre a “elite” que deseja afirmar a sua própria personalidade com formas originais de roupas, e o público, que imediatamente converte isso para o seu uso com mais ou menos boas imitações. E não se pode de deixar de olhar outra sutil e decadente razão, isto é, o esforço de tais “estilistas” que jogam com o fator de sedução de forma a assegurar sucesso em suas “criações”, estando bem conscientes do efeito que a surpresa e novidade constantemente repetidas criam.

A economia da moda

É outra característica da moda atual que, mesmo permanecendo principalmente como um fato estético, ela também se tornou um elemento econômico de imensa proporção. As poucas lojas de moda estabelecidas que uma vez ditaram indisputadas regras de elegância desta ou daquela metrópole da cultura europeia foram agora substituídas por um número de organizações financeiramente poderosas que, enquanto suprem a demanda de roupas, também formam gostos populares e constantemente trabalham para promover uma crescente demanda para seus próprios mercados.
As razões para esta transformação devem ser encontradas, antes de tudo, na chamada “democratização” da moda através da qual um crescente número de indivíduos cai sob o feitiço da elegância, e, em segundo lugar, no progresso técnico que tornou possível a produção em massa de estilos que seriam caros mas que agora se tornaram fáceis de adquirir no chamado “mercado-pronto” (prêt-à-porter).
Assim nasceu o mundo da moda, um mundo que inclui artistas e artesãos, fabricantes e comerciantes, editores e críticos, bem como uma classe inteira de humildes trabalhadores que obtêm seus salários da moda.

Desenhista de Moda

Mesmo que o fator econômico seja a força motriz desta atividade, sua alma é sempre o “estilista”, a pessoa que através de uma hábil escolha de material, cor, corte, linha e ornamentos de acessórios gera vida a um novo e expressivo estilo que agrada ao público. É desnecessário listar as dificuldades desta arte, fruto da habilidade e de talento e, ainda mais, da sensibilidade ao gosto do momento.
Um estilo destinado a certo sucesso adquire a importância de uma invenção. É envolto por um sigilo enquanto espera para ser “lançado”. Uma vez no mercado, gera uma subida nos preços, enquanto a mídia lhe dá ampla publicidade, quase como se fosse um evento de importância nacional.
A influência dos desenhistas de moda é tão forte que a indústria têxtil deixa sua produção ser guiada por eles, tanto na quantidade como na qualidade. A sua influência social é igualmente grande na interpretação dos costumes do público, porque, se a moda foi no passado a expressão externa do uso de um povo, hoje ela o é ainda mais – desde quando este fenômeno da moda começou a ser resultado de reflexão e estudo.

“Alta-costura”

Mas a formação de gostos e preferências das pessoas e a orientação da sociedade em direção a sérios ou decadentes hábitos não depende apenas dos desenhistas da moda. Também depende de toda a complexa organização da indústria da moda, especialmente das casas de produção e dos críticos daquele mais refinado setor, que encontra seus clientes nas classes mais altas e toma o nome de “alta-costura”, como que para designar a fonte da corrente que as pessoas futuramente seguirão quase que cegamente, aparentemente como uma mágica compulsão.
Agora, já que tantos valores estão envolvidos nisso e às vezes ameaçados por estilos, como Nós temos rapidamente apresentado, parece ser providencial que as pessoas que entrem neste campo devam ter recebido uma preparação técnica e cristã e que desejem ajudar a libertar os estilos daquelas tendências que não são recomendáveis.
Estas são as pessoas que veem nos estilos a arte de saber vestir-se, cujo objetivo é certamente, ainda que apenas parcialmente, melhorar a beleza do corpo, mas com tal moderação que o corpo, a obra-prima da criação, não será obscurecido, mas, ao contrário, nas palavras do Príncipe dos Apóstolos, será exaltado na “pureza incorruptível de um espírito suave e pacífico, o que é tão precioso aos olhos de Deus.” (I Pd 3, 4)

II. O PROBLEMA MORAL DA MODA E SUAS SOLUÇÕES

O problema da moda consiste numa reconciliação harmoniosa da ornamentação exterior da pessoa com o interior de “um espírito suave e pacífico”.
No entanto, algumas pessoas se perguntam se realmente existe um problema moral num fato exterior, contingente e relativo como a moda. E, presumindo que exista, elas se perguntam em que termos este problema deve ser estabelecido e de acordo com que princípios deve ser resolvido.
Este não é o lugar para protestar longamente contra as insistentes tentativas de muitos contemporâneos de separar as atividades exteriores do homem do campo moral, como se pertencessem a dois diferentes universos, como se o homem não fosse o sujeito e o objeto do campo moral e, portanto, responsável diante do regulador absoluto de todas as coisas.
É bem verdade que os estilos, como a arte, a ciência, a política e outras atividades chamadas profanas, seguem as suas próprias regras para alcançar os seus fins imediatos a que se propõem. No entanto, seu sujeito é invariavelmente o homem, que não pode prescindir de dirigir suas atividades a seu último e supremo fim.
Existe, então, o problema moral dos estilos, não somente na medida em que digam respeito a uma atividade humana genérica, mas principalmente na medida em que esta atividade seja levada a cabo num campo comum, ou pelo menos bem próximo, de evidentes valores morais. O problema é especialmente grande, já que os objetivos dos estilos – objetivos que em si mesmo são bons – são facilmente torcidos pela perversa tendência de uma natureza humana que devido ao pecado é uma natureza caída, e por isso a moda pode ser transformada em ocasião de pecado e de escândalo.

Severidade Eclesiástica

Esta inclinação de uma natureza corrupta para abusar das modas levou frequentemente a tradição eclesiástica a tratar a moda com suspeitoso e severo julgamento, como é expresso com intensa firmeza por notáveis escritores sagrados e por missionários zelosos, até ao ponto de “queimar objetos vãos”, o que, de acordo com o uso e a austeridade daqueles tempos, era estimado como eloquência efetiva pelo povo.
A partir destas manifestações de severidade, que basicamente mostram o cuidado materno da Igreja com o bem das almas e com os valores morais da civilização, não se pode argumentar, no entanto, que o Cristianismo demande quase que a renúncia do respeito e do cuidado pelo físico da pessoa e por seu decoro externo. Qualquer um que chegasse a esta conclusão estaria esquecendo o que o Apóstolo dos Gentios escreveu: “Do mesmo modo, quero que as mulheres usem traje honesto, ataviando-se com modéstia e sobriedade” (I Tim 2, 9).

A Atitude Positiva da Igreja

A Igreja, pelo contrário, não censura ou condena estilos quando eles são criados para o próprio decoro e ornamentação do corpo, mas ela jamais falha em advertir os fiéis contra serem facilmente arrastados por eles.
Esta atitude positiva da Igreja deriva de razões bem mais altas que a mera estética ou considerações hedonistas que foram assumidas por um renovado paganismo. A Igreja sabe e ensina que o corpo humano, que é a obra-prima de Deus no mundo visível, e que foi colocado a serviço da alma, foi elevado pelo Divino Redentor ao nível de templo e de instrumento do Espírito Santo, e como tal deve ser respeitado. Portanto, a beleza do corpo deve não ser exaltada como um fim em si mesmo, e muito menos como um disfarce que manche a dignidade de que foi dotado.

Avaliação Moral da indumentária

Falando em termos concretos, não se pode negar que junto com estilos decorosos existem também modas imodestas que criam confusão em mentes bem formadas e podem ser incentivos para o mal. É quase sempre difícil indicar com normas universais a linha divisória entre o decoro e a imodéstia, porque a avaliação moral da veste depende de muitos fatores. No entanto, o chamado relativismo da moda a respeito de tempo, lugares, pessoas e educação não é uma razão válida para renunciar a priori a um julgamento moral nesta ou naquela moda que, agora, viola o limite normal da decência.
O senso de decência, quase sem ser consultado nesta matéria, dá uma advertência imediata se a imodéstia, sedução, idolatria da matéria e luxúria, ou qualquer frivolidade, são ocultadas. E se os fabricantes de modas imodestas são peritos no tráfico da perversão, misturando-a num vestuário de elementos estéticos que são bons em si mesmo, a sensualidade humana é desafortunadamente ainda mais hábil em descobri-la e está pronta para cair sob seu feitiço.
Aqui como em todo lugar, uma maior sensibilidade a esta advertência contra as armadilhas do mal, longe de ser motivo para criticar aqueles que a possuem, como se fosse um sinal de depravação interior, é geralmente uma marca de uma alma reta e de uma vigilância sobre as paixões.
Mas não importa quão ampla e variável seja a moral relativa das modas: sempre haverá uma norma absoluta para guardar depois de ter escutado a admoestação da consciência advertindo ao se aproximar o perigo: um estilo jamais deve ser ocasião próxima de pecado.[2]

O Elemento da Intenção

Entre os elementos objetivos que concorrem para fazer que um estilo seja imodesto, está em primeiro e principal lugar a má intenção de seus fabricantes. Onde existe uma busca de criar ideias e sensações impuras através da moda, está presente uma técnica de disfarçada malícia. Eles sabem, entre outras coisas, que o atrevimento nestas matérias não pode ser levado além de certos limites, mas eles também sabem que o efeito desejado está próximo destes limites, e que uma hábil combinação de elementos sérios e artísticos com outros que são menos dignos é altamente adequada para capturar a fantasia e os sentidos. E eles se dão conta de que uma moda assim planejada será aceita por clientes que buscam tais efeitos, mas de que isso não comprometerá, ao menos em sua opinião, o bom nome das clientes honrados.
Toda restauração da decência deve então começar com a intenção daqueles desenhistas e daqueles que vestem suas roupas. Em ambos deve haver um despertar de suas consciências bem como de sua responsabilidade pelas trágicas consequências que podem resultar de roupas que são demasiadamente ousadas, especialmente se vestidas em público.

Imodéstia

Basicamente a imoralidade de alguns estilos depende em grande parto do excesso da imodéstia ou do luxo. Um excesso de imodéstia em moda envolve, na prática, o corte do vestuário. O vestuário não deve ser avaliado segundo a estimação de uma decadente ou corrupta sociedade, mas de acordo com as aspirações de uma sociedade que premia a dignidade e a seriedade da sua veste pública.
Geralmente é dito quase com passiva resignação que a moda reflete os costumes do povo. Seria mais exato dizer – e muito mais útil dizer – que ela expressa a decisão e a direção moral que uma nação tenciona tomar: ou ser naufragada na licenciosidade ou manter-se a si mesma num nível a que foi elevada pela religião e pela civilização.

Luxo

Não menos afortunadamente, mas em outra área, existem os excessos de estilos quando lhes é designada a tarefa de satisfazer a sede de luxo. O pequeno mérito que o luxo tem como fonte de trabalho é quase anulado pela grave desordem que deriva dela na vida privada e pública. Pondo de lado a dissipação da riqueza, que o luxo excessivo exige dos seus adoradores – que mais provavelmente terminarão sendo devorados por ele –, o luxo sempre insulta a integridade daqueles que vivem do seu próprio trabalho, e expõem a pobreza ao cinismo, seja ostentando fáceis ganhos, seja criando suspeita sobre a maneira de viver daqueles que vivem ao seu redor. Onde a consciência moral não modera o uso das riquezas, mesmo que sejam honestamente adquiridas, ou uma barreira medonha se colocará entre as classes ou toda a sociedade ficará à deriva, exausta pela corrida em direção a uma utopia de felicidade material.
Indicando o dano que uma falta de controle nos estilos pode fazer a indivíduos e à sociedade, Nós não tentamos sugerir que a força expansiva ou o gênio criativo dos desenhistas de moda devam ser reprimidos, nem que a moda deva ser reduzida a formas inalteráveis, à monotonia ou a uma triste severidade.

Três princípios básicos:

Para tal, alguns poucos princípios devem ser postos como base para resolver o problema moral dos estilos; a partir deles, normas mais concretas podem ser facilmente tiradas.

… a influência dos estilos

O primeiro é não minimizar a importância da influência de um estilo para o bem ou para o mal. A linguagem da veste, como Nós já dissemos, é mais efetiva quando é mais comum e é entendida por todos. Talvez se diga que a sociedade fala através da roupa que se veste. Através das roupas ela revela suas secretas aspirações e as usa, pelo menos em parte, para construir ou destruir o futuro.
Mas o cristão, seja ele o criador ou o cliente, deve ser cuidadoso para não subestimar os perigos e ruínas espirituais espalhados pelas modas imodestas, especialmente aquelas vestidas em público, por causa da continuidade que deve existir entre aquele que prega e aquele que pratica, até no sentido externo. Ele se recordará da suprema pureza que o Redentor exige de Seus discípulos até nos olhares e nos pensamentos. E se recordará da severidade que Deus mostra para com aqueles que causam escândalo.
Devemos lembrar nesta matéria as fortes palavras do profeta Isaías, em que foi predita a infâmia que sucederia na cidade santa de Sião por causa da imodéstia das suas filhas (Cf. Isaías 3, 16-24). E também devem lembrar-se aquelas outras palavras com que o maior de todos os poetas italianos expressou em termos veementes seus sentimentos de indignação pela imodéstia rastejante na sua cidade (cf. Dante, Purgatório, 23, 94-108).

… controle

O segundo princípio é que o estilo deve ser direcionado e controlado em vez de ser abandonado ao capricho e reduzido a serviço vil. Isso se aplica aos fabricantes de estilos – desenhistas e críticos; a consciência exige que eles não se submetam cegamente aos gostos depravados que são manifestados pela sociedade, ou por uma parte dela, e nem sempre a parte mais discernida em sabedoria. Mas também se aplica a indivíduos, cuja dignidade exige deles que sejam libertos com livre e iluminada consciência da imposição de gostos predeterminados, especialmente gostos discutíveis no campo moral.
Controlar os estilos também significa reagir firmemente contra costumes que são contrários às melhores tradições. O controle sobre a moda não contradiz mas, pelo contrário, confirma o ditado que afirma que “a moda não nasce fora nem contra a sociedade”, dado que a pessoa atribui à sociedade – como deveria ser – conscientemente e autonomamente dirigindo-se a si mesmo.

… e moderação

O terceiro princípio, ainda mais concreto, é o respeito à “medida”, ou melhor, à moderação em todo o campo de estilos. Assim como o excesso é a principal causa de seus defeitos, assim a moderação preservará o seu valor.
A moderação, acima de tudo, deve oferecer um padrão pelo qual regula, a todo custo, a gula do luxo, da ambição e dos caprichos. Os estilistas, e especialmente os desenhistas, devem deixar-se guiar pela moderação ao desenhar o corte ou a linha de uma veste e na seleção de seus ornamentos, convencidos de que a sobriedade é a qualidade mais fina da arte.
Longe de querer um retorno a formas antiquadas – apesar de que estas com frequência reaparecem nas modas como novidade – mas confirmando o valor perene da sobriedade, Nós gostaríamos de convidar os artistas de hoje a fixar-se por um momento em certas figuras femininas nas obras de artes clássicas que possuem indisputável valor estético. Aqui a roupa, marcada pela decência cristã, é o ornamento digno de pessoas cuja beleza é combinada como um único triunfo de admirável dignidade.

III. SUGESTÕES ESPECÍFICAS PARA OS PROMOTORES
E ASSOCIADOS DA “UNIÃO”.

E agora daremos algumas sugestões específicas a vocês, amados filhos e filhas, promotores e associados da “União Latina de Alta-costura.”
Parece-nos que a própria palavra “latina”, que vocês desejaram para designar sua associação, indica não somente uma geográfica região, mas acima de tudo a meta ideal de sua atividade. De fato, este termo “latina”, que é tão rico em profundo significado, parece expressar, entre outras coisas, uma viva sensibilidade e respeito pelos valores da civilização.
O termo parece expressar ao mesmo tempo um sentido de moderação, de equilíbrio e de concretude; qualidades que são todas necessárias aos componentes de sua União. Agradou-Nos ver que todas estas características inspiraram o propósito de seus estatutos, o qual vocês cordialmente submeteram a Nós. Nós notamos que estes estatutos derivam de um completo panorama do complexo problema da moda, mas especialmente da sua firme persuasão da responsabilidade moral da moda.
Seu programa é, portanto, tão amplo como o problema, já que inclui todos os setores determinantes da moda: o grupo feminino direto, com a intenção de guiá-los na formação de seus gostos e nas escolhas das roupas; as casas que são as “criadoras da moda” e a indústria têxtil; que por comum acordo todos possam adaptar seus esforços aos princípios saudáveis da União. E sendo a União composta por organizações que não são meros espectadores mas participantes – Nós podemos dizer atores no teatro da moda – seu programa também lida com o aspecto econômico da moda, tornado mais difícil agora pelas futuras mudanças na produção e pela unificação dos mercados europeus.

A formação do gosto

Uma das indispensáveis condições para alcançar os objetivos de sua União descansa na formação de sólidos gostos do público. Esta é de fato uma tarefa difícil, à qual às vezes se opõem esforços premeditados, e que requer de vocês muita inteligência, grande tato e grande paciência. A despeito de tudo, encarem-na com um espírito corajoso. Vocês certamente encontrarão fortes aliados, antes de tudo, entre as excelentes famílias cristãs que ainda são encontradas em grande número na sua terra nativa.
É claro que sua ação nesta direção deve ter como meta ganhar para sua causa especialmente aqueles que controlam a opinião pública através da imprensa e outros meios informativos. As pessoas querem ser guiadas no estilo mais do que em qualquer outra atividade. Não é que elas não tenham senso crítico nesta matéria de estética ou de propriedade, mas é que, às vezes dóceis e outra vezes preguiçosas demais para fazer uso desta sua faculdade, elas aceitam a primeira coisa que lhes são oferecidas e só mais tarde se dão conta de quão medíocres ou indecorosas certas modas são.
É necessário então que suas ações sejam oportunas. Entre todos, as celebridades são aquelas que neste momento estão guiando com grande efetividade os gostos do público, e especialmente as do mundo do teatro e dos filmes ocupam posição preeminente. Na mesma medida em que as responsabilidades delas são grandes, na mesma medida seu querer será frutífero se trouxer de volta pelo menos algumas delas para esta boa causa.

Problemas estéticos e morais

Um traço distintivo de sua União parece repousar no cuidadoso estudo do problema moral e estético das modas, conduzidos por encontros periódicos, como o presente congresso, que cada vez mais têm caráter internacional, persuadidos como vocês estão de que a moda do futuro terá um caráter unificador nos continentes individuais. Trabalhem vocês mesmos, então, para trazer a estes congressos a contribuição cristã de sua inteligência e talentos, com tal sabedoria persuasiva que ninguém seja capaz de suspeitar de preconceito no seu próprio interesse ou da fraqueza do seu compromisso.
A sólida consistência dos seus princípios será colocada à prova pelo chamado espírito moderno, que não consegue sofrer resistência. E será tentado pela mesma indiferença de muitos em face da consideração moral dos estilos, o que é o mais insidioso sofisma repetidamente usado para justificar a imodéstia e parece ser igual em todo lugar. Um destes ressuscita o antigo ditado que diz ab assuetis non fit passio (“As paixões não se levantam em face das coisas a que estamos acostumados”) de forma a marcar como old-fashioned(fora da moda) a revolta de pessoas honestas contras modas excessivamente ousadas. Será preciso mostrar quão fora de lugar este antigo ditado está nesta questão?
Quando falamos dos limites absolutos por defender diante do relativismo dos estilos, Nós mencionamos o infundado caráter de outra opinião falaz, de acordo com a qual a modéstia já não é apropriada na era contemporânea, que se tornou agora livre de todos esses inúteis e ruinosos escrúpulos.
Certamente pode conceder-se que existem diferentes degraus de moralidade pública de acordo com o tempo, a natureza e as condições da civilização das pessoas individuais. Mas isso não invalida a obrigação de lutar por um ideal de perfeição e não é razão suficiente para renunciar ao alto degrau de moralidade que já foi alcançado, e que se manifesta precisamente na grande sensibilidade pela qual as consciências reconhecem o mal e suas armadilhas.

Um combate mortal

Que sua União, então, se comprometa com este combate, cujo objetivo é assegurar um nível ainda mais alto de moralidade, digno de todas as tradições cristãs, nos costumes públicos de sua nação. Não é à toa que seu trabalho, que luta por introduzir estilos morais, é chamado uma “batalha”. Qualquer empreendimento que tente devolver ao espírito o seu domínio sobre a matéria encontra a batalha da mesma forma.
Considerando cada batalha em particular, pode-se ver que há indivíduos e significativos episódios na amarga e eterna luta que todos que estão chamados à liberdade no espírito de Deus devem sofrer nesta vida. O Apóstolo dos Gentios descreve com inspirada exatidão a linha de frente e as forças opositoras deste combate: “Porque os desejos da carne se opõem aos do Espírito, e estes aos da carne; pois são contrários uns aos outros. É por isso que não fazeis o que quereríeis” (Gal 5, 17). Listando as obras da carne num triste inventário da herança do pecado original, ele inclui entre elas a impureza, à qual ele opõe a modéstia como um fruto do Espírito Santo.
Ocupem-se disso generosamente e com confiança, sem permitir jamais que vocês sejam enlaçados por esta timidez que fez o numericamente pequeno – mas heroico exército – do grande Judas Macabeus dizer: “Como poderemos enfrentar tamanho exército, se somos tão poucos, tanto mais que nos sentimos fracos, porque hoje nada comemos?” (I Mac 3, 17). Que a mesma resposta dada pelo grande campeão de Deus e da pátria encoraje vocês: “Porque a vitória no combate não depende do número, mas da força que desce do céu” (Ibid., 19).
Com esta celestial garantia em mente, Nós nos despedimos de vocês, amados filhos e filhas. E Nós elevamos Nossas súplicas ao Onipotente para que Ele se digne derramar Sua assistência sobre sua União, e Suas graças sobre cada um de vocês, sobre suas famílias, e em particular sobre os humildes trabalhadores da moda. Como um sinal destes favores que Nós lhes desejamos a vocês, Nós cordialmente lhes concedemos a vocês Nossa paternal Bênção Apostólica.

Fontes:
[1]S.S. PIO XII, 8 DE NOVEMBRO DE 1957. ORIGINAL NO “THE POPE SPEAKS VOL. IV, NO. 3, – PP. 273-285”. VERSÃO ON LINE NO SITETTP://WWW.STTHOMAS.EDU/CATHSTUDIES/CST/PUBLICATIONS/PIUSXII.HTML. TRADUÇÃO DE JULIE MARIA/REVISÃO IGOR BARBOSA.
[2] CF. HANDBOOK OF MODESTY PARA UM ESTUDO DETALHADA SOBRE A MODÉSTIA EMHTTP://WWW.SLIDESHARE.NET/JULIEMARIA/HANDBOOK-OF-MODESTY (N.T)

Fonte: http://floresdamodestia.blogspot.com/2014/03/problemas-morais-nos-estilos-da-moda-ss.html. Mas o corrigimos em muitos pontos, especialmente quanto à gramática. 

“Se e de que modo negou Santo Tomás a Imaculada Conceição”, por Carlos Nougué


Se e de que modo negou Santo Tomás a Imaculada Conceição
Carlos Nougué

1. Ao que parece, podem distinguir-se acerca disto três momentos em Santo Tomás.lxxxvi
• No primeiro, no início da carreira teológica (1253-1254), ele afirma o privilégio da Imaculada Conceição, talvez por influxo da tradição e em especial da Festa da Conceição celebrada em muitas igrejas, além de seu próprio fervor pela santidade perfeita da Mãe de Deus. Com efeito, escreve no Comentário às Sentenças de Pedro Lombardo (I, d. 44, q. 1, a. 3, ad 3): “Tal foi a pureza da Bem-aventurada Virgem, que foi isenta do pecado original e de pecado atual” (destaque nosso).
• No segundo momento, ao observar as dificuldades da questão, Santo Tomás hesita e não se decide nem se pronuncia, porque os teólogos de seu tempo sustentam que Maria é imaculada independentemente dos méritos de Cristo – o que, com efeito, é de todo equivocado, porque fere o caráter de universalidade da redenção promovida por Cristo, caráter que é dito e redito expressamente nas Escrituras (Rom 3, 23; 5, 12 e 19; Gal 3, 33; 2 Cor, 5, 14; 1 Tim, 2, 6). Por isso apresentou o seguinte problema na Suma Teológica (III, q. 27, a. 2): se a Virgem foi santificada antes da animação – e já vimos que se trata de animação mediata –, ou seja, na concepção de seu corpo. Santo Tomás dá, no início deste artigo, quatro argumentos a favor da concepção imaculada, ainda, pois, antes da mesma animação. E depois responde: “Não se concebe a santificação da bem-aventurada Virgem antes da animação: em primeiro lugar, porque esta santificação deve purificá-la do pecado original, o qual não pode ser apagado senão pela graça, que tem por sujeito a alma mesma; em segundo lugar, se a Virgem Maria tivesse sido santificada antes da animação, não teria incorrido jamais na mancha do pecado original e não teria tido necessidade de ser resgatada por Cristo […]. E isto não convém, porque Cristo é o salvador de todos os homens”.lxxxvii Mas acrescenta ao fim do corpus: “Por isso, resta que a santificação da Bem-aventurada Virgem se tenha dado após sua animação”. E reafirma em ad 2: “Contraiu o pecado original”.
Quanto todavia ao momento preciso em que a Virgem Maria foi santificada, Santo Tomás não se pronuncia: declara que se seguiu à animação (“cito post”, diz no Quodlibet 6, a. 7), mas em momento ignorado (“quo tempore sanctificata fuerit, ignoratur”, diz na Suma Teológica, III, q. 27, a. 2, ad 3). Na mesma Suma não aprofunda a questão, ainda considerando que São Boaventura tinha negado que a santificação se tivesse dado no momento mesmo da animação. Talvez sua reserva se devesse à atitude da Igreja Romana, que não celebrava a mesma Festa da Conceição celebrada em outras igrejas.        
Pois bem, os princípios aduzidos por Santo Tomás não concluem de todo contra o privilégio, e permanecem se se admite a redenção preservadora. Mas, como com acerto diz Garrigou-Lagrange, em todo este momento se sente falta “da distinção explícita entre o debitum incurrendi [débito de incorrer] e o fato de incorrer na mancha original” (p. 56).
• No terceiro momento (1272 ou 1273), por fim, diz Santo Tomás: a bem-aventurada Virgem “não incorre em pecado original, nem em mortal, nem em venial”.lxxxviii Parece pois que ao fim da vida Santo Tomás, após certo tempo de reflexão, voltou a afirmar o privilégio sustentado no Comentário às Sentenças I, o que se pode notar – de certo modo, dizemos nós – no mesmo Compêndio de Teologia, em cujo capítulo 224 do livro 1 se lê: “Não só de pecado atual foi isenta, mas também do original, purificada por especial privilégio. […] Deve ter-se portanto que foi concebida com pecado original, mas foi purgada dele de dado modo especial”. Com efeito, não haveria privilégio especial se só tivesse sido purificada como o foram Jeremias e São João Batista, ou seja, no seio da mãe pouco depois da animação.     
2. Podemos já concluir também este apêndice, por partes.
• Antes de tudo, insista-se, na época de Santo Tomás os cristãos estavam divididos quanto ao assunto da Imaculada Conceição, a ponto de a mesma Igreja Romana não celebrar sua festa. Ora, o dogma da Imaculada Conceição não foi estabelecido senão no século XIX, obviamente pela regra próxima da fé, ou seja, o magistério da Igreja sob as chamadas quatro condições vaticanas (próprias ou análogas).lxxxix Logo, ainda que o que dizem Garrigou-Lagrange e outros tomistas quanto a este terceiro momento não se tenha dado de fato, como o querem alguns adversários do tomismo, em nenhum momento o nosso Doutor cometeu nenhum pecado contra a fé.
• Não obstante, devem dizer-se algumas coisas.
Que Maria tenha sido concebida sem a mancha do pecado original não derroga a dignidade de Cristo enquanto redentor universal, porque foi em previsão e provisão e pois como efeito especialíssimo da mesma redenção que assim foi concebida. Tinha de ser carne apta simpliciter para ser mãe de Deus, e Cristo é não só a consumação mas o eixo dos tempos. – Isto todavia não foi entendido não só por Santo Tomás, mas por muitos e muitos outros importantes Doutores.
Ademais, porém, tanto em Santo Tomás como em outros Doutores um fundo filosófico contribui para tal incompreensão: a manutenção da tese aristotélica da dilação da alma última, tese que já tratamos.
• E sobretudo: se Santo Tomás não foi nem poderia ser dotado de inerrância, suas poucas imprecisões ou erros filosóficos e/ou teológicos não derrogam nem minimamente seu posto de maior dos Doutores: não só porque o mesmo magistério o declarou ao menos ordinariamente o Doutor Comum da Igreja, mas porque a multidão incalculável de seus acertos filosóficos e sobretudo teológicos – grande parte dos quais inauditamente adotados pelo mesmo magistério – o fazem o ápice do pensamento humano e a referida antecâmara da visão beatífica. Como disse Pio XI, “o tomismo é o céu visto da terra”; mas ousamos dizer nós: e a terra como o céu quer que a vejamos, ou seja, em ordem a ele mesmo.

lxxxvi Até à conclusão, que será de todo nossa, seguiremos aqui algo livremente a Reginald Garrigou-Lagrange, La Madre del Salvador y nuestra vida interior, 3ª. ed., trad. José López Navío, Buenos Aires, Ediciones Desclée, de Brower, 1954, p. 53-58. – Agradecemos a Sidney Silveira a indicação deste texto.
lxxxvii Diz Garrigou-Lagrange (p. 54): “Mesmo depois da definição dogmática de 1854 [da Imaculada Conceição], é verdade afirmar que Maria não foi santificada antes da animação”. Mas isto é manter a tese da animação mediata. De nossa parte, preferimos formulá-lo assim: ainda depois da definição dogmática, não é de fé a doutrina da animação imediata; mas hoje, pelos mesmos dados permitidos pela instrumentária científica, é a que se deve abraçar.
lxxxviii Expositio super salutationem angelicam, in S. Thomae Aq. opuscula omina, t. I, Paris, ed. Mandonnet, 1927, introd., p. xix. – Contra, aliás, a impugnação desta passagem por inautêntica, note-se que, como mostra Garrigou-Lagrange a partir de J. F. Rossi, ela está em 16 dos 19 manuscritos consultados por este. Mas alguns a impugnam porque se lê umas linhas abaixo: “Todavia, a bem-aventurada Virgem foi concebida com o [pecado] original, mas não nasceu [com ele]”. A isto responde Garrigou-Lagrange: “É inverossímil que a poucas linhas de distância se encontrem o sim e o não. A dificuldade desaparece se se leva em consideração que para Santo Tomás a concepção do corpo, no princípio da evolução do embrião, precede, pelo menos em um mês, à animação, que é a [chamada] concepção passiva consumada, antes da qual não existe a pessoa, pois ainda não existe a alma racional” (p. 57, n. 41).
lxxxix Estabelecidas pelo Vaticano I com respeito ao dogma da infalibilidade papal. Ei-las: O Romano Pontífice, quando fala ex cathedra – isto é, / (1ª.) quando cumprindo seu cargo de pastor e doutor de todos os cristãos, define por sua suprema autoridade apostólica que / (2ª.) uma doutrina sobre a fé e sobre os costumes / (4ª.) deve ser sustentada / (3ª.) pela Igreja universal –, pela assistência divina que lhe foi prometida na pessoa do bem-aventurado Pedro, goza daquela infalibilidade de que o Redentor divino quis que fosse provida sua Igreja na definição da doutrina sobre a fé e sobre os costumes”.

“Se se deve rezar pela salvação do mundo”, de Carlos Nougué

Carlos Nougué

Nota prévia
Este é o artigo 3 de um longo opúsculo, de mesmo título, publicado em livro (Estudos Tomistas, esgotado). – Atente-se a que se trata de artigo disputado, ou seja, os primeiros argumentos são objeções à doutrina sustentada na resposta do artigo (e na solução das objeções).
*  *  *
E parece que sim, que se deve rezar pela salvação do mundo.
1. Com efeito, pelas razões indicadas anteriormente, deve-se rezar pela salvação de todos. Mas o mundo é formado exatamente por esses todos por cuja salvação se reza. Logo, deve-se rezar pela salvação do mundo.
2. Ademais, o homem é um animal político ou social. Ora, não o poderia ser se não se organizasse em cidades, ou seja, nas nações ou países de que justamente se compõe o mundo. Mas a salvação do homem não pode dar-se, como visto nos artigos anteriores, sem a graça, a qual, todavia, como diz Santo Tomás de Aquino, non tollat naturam, sed perficiat (não suprime a natureza, senão que a perfaz [ou aperfeiçoa]).[1] Por conseguinte, ou seja, porque a graça não vem suprimir o caráter naturalmente político do homem, deve-se rezar pela salvação do mundo e de suas póleis.
3. Por fim, se justamente se entende a natureza política do homem enquanto ordenada à salvação, então esta supõe a cristianização do mundo e de suas póleis; e, com efeito, o mundo cristianizou-se a partir da conversão da Roma imperial e constituiu-se em Cristandade, onde reinava Cristo mediante a direção espiritual da Igreja. Mas o mundo veio descristianizando-se, em longo processo de apostasia que parece atinge hoje o ápice. Deve-se portanto rezar pela salvação do mundo e de seus países no preciso sentido de que se deve rezar por sua recristianização (ou, o que é dizer o mesmo, por sua reorganização em Cristandade).
Mas contrariamente está o dito em 2 Pedro 3, 13.: “esperamos novos céus e nova terra, onde habita a justiça”. Ora, diz o Senhor (cf. Mateus 5): “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados”. Mas não o serão senão nos céus e na terra onde habita a justiça. Não se deve, portanto, rezar pela salvação do mundo.
Resposta. Deve dizer-se, antes de tudo, que a palavra mundo se toma em várias acepções.
1. Antes de tudo, chama-se “mundo” não só ao universo mas à parte sua em que vivemos, a terra. Ora, o universo, incluída a terra, é exatamente o que passará[2] para dar lugar a novos céus e a uma nova terra.[3] Tais novos céus e tal nova terra, explica-os detidamente Santo Tomás de Aquino no Compêndio de Teologia:[4] porque o mundo será então o lugar dos corpos gloriosos, ou seja, os que se ordenarão absolutamente à alma em sua visão beatífica de Deus por essência, então os astros cessarão de mover-se, na terra já não haverá vegetais nem animais, etc. – tudo isso que terá servido aos homens de corpo propriamente terrestre. E muito mais que compreendermos tal transformação, que se dará com o acabamento da Jerusalém Celeste, os católicos, de acordo com a promessa divina, “esperamos novos céus e nova terra, onde habita a justiça”.[5]
2. Ademais, “mundo” é o que encerra ou designa os princípios da recusa de Deus e de sua Igreja (e este é o significado mais comum nas Escrituras e no âmbito teológico): “Não ameis o mundo nem as coisas do mundo… porque tudo o que há no mundo é concupiscência da carne, e concupiscência dos olhos, e soberba da vida”;[6] “Não sabeis que a amizade deste mundo é inimiga de Deus? Portanto, todo aquele que quer ser amigo deste século, esse se constitui inimigo de Deus”;[7] “Ai do mundo por causa dos escândalos!”;[8] “Todo o mundo está sob o maligno”;[9] “Se o mundo vos aborrece, sabei que, primeiro que a vós, me aborreceu a mim. Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que seria seu; mas, porque não sois do mundo, antes eu vos escolhi do meio do mundo, e por isso o mundo vos aborrece”;[10] “Vem o príncipe deste mundo, e não tem em mim coisa alguma”;[11] “O príncipe deste mundo já está julgado”;[12] “Todo o que nasceu de Deus vence o mundo; e a vitória que vence o mundo é nossa fé”.[13]
3. Chama-se “mundo”, ainda, ao conjunto de homens que hão de ser remidos pela Redenção, ou seja, os eleitos: “Deus não enviou seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele”;[14] o Pai amou o mundo até dar-lhe seu próprio Filho Único e, com este, todos os bens.[15] E, com efeito, ao instituir a eucaristia, disse Cristo: “Bebei dele todos. Porque isto é o meu sangue [que será o selo] do novo testamento, o qual será derramado por muitos [não por todos] para remissão dos pecados”[16] (ou, na versão de Marcos:[17] “Isto é o meu sangue do Novo Testamento, o qual será derramado por muitos”).[18]
4. Chama-se “mundo”, ademais, à sociedade natural (política, cultural, etc.) dos homens: “Se meu reino fosse deste mundo, certamente meus ministros se haveriam de esforçar para que eu não fosse entregue aos judeus”;[19] “Os que usam deste mundo sejam como se dele não usassem, porque a figura deste mundo passa”;[20] “Por carta vos escrevi que não tivésseis comunicação com os fornicadores; não certamente com os fornicadores deste mundo… doutra sorte deveríeis sair deste mundo”.[21]
5. Muitos dizem porém que o mundo entendido no último sentido é, diferentemente do mundo nos dois sentidos anteriores, algo neutro. Mas, em sentido contrário, diz Santo Agostinho[22] que o mundo enquanto sociedade natural nunca é neutro, senão que está permanentemente dividido entre a cidade de Deus e a do demônio. – Daí vem que se possa tomar mundo ainda, e por fim, de outra maneira: a de quando dizemos “mundo cristão”, ou “mundo pagão”, ou “mundo apóstata”, etc. Mas esta última maneira decorre precisamente do referido por Santo Agostinho. Com efeito, o mundo cristão é aquele em que domina a Cidade de Deus, que, sem poder suprimir embora a cidade do demônio e do amor-próprio, como que a mantém encadeada; o mundo pagão e o mundo apóstata são, ao contrário, formas diversas da própria cidade do demônio e do amor-próprio, a qual mantém oprimida a Cidade de Deus (ainda que aquela já esteja de antemão derrotada, no preciso sentido em que o diz o Padre Calmel em Théologie de l’histoire: “Para esta terra, vitória sem dúvida, mas vitória no sentido de que aquele que o Pai deu a Jesus ninguém o pode tirar de Sua mão, não no sentido de que os lobos vorazes não perseguirão as ovelhas fiéis até no redil do Dono e não lhes farão sentir suas mordidas; mas é impossível que os lobos sejam mais fortes que o Dono; eles não podem levar consigo as ovelhas que permanecem firmes na fé e confiantes com humildade”).
Pois bem, hoje não só já apostataram as nações, senão que também já apostatou parte considerável da hierarquia eclesiástica.[23]
• Naturalmente, não há nada de ilícito quanto à fé em rezar pela salvação, ou seja, pela recristianização deste mundo apóstata. Mas, antes de tudo, insista-se, é de fé que tanto no sentido de 1 supra como no de 4 supra um dia o mundo deixará de ser, para dar lugar, como dito, a novos céus e a uma nova terra – e à Jerusalém Celeste. Ademais, a espera dos novos céus e da nova terra, segundo o dito em 2 Pedro 3, 13 (“esperamos novos céus e nova terra, onde habita a justiça”), não é própria de hoje, num mundo apóstata; senão que também o era dos tempos apostólicos ou do mesmo cume da Cristandade, o século XIII. Nossa esperança, com efeito, não se há de voltar antes para a terra, para o mundo, ainda um mundo cristão, senão que nos é infundida para que suspiremos sobretudo e justamente pela Jerusalém Celeste. Como diz o Padre Calmel O. P. ainda em Théologie de l’histoire, “Deus faz durar o mundo propter electos”, razão por que este mundo deixará de durar quando se salvar o último deles. Mas, se a história não se desenrola senão para a completação do número dos eleitos, então nossa espera e nosso mesmo rogo não se hão de ordenar última e centralmente senão à cidade e pátria destes – a celeste. Com efeito, diz Santo Agostinho no sermão numerado 116: “Então, digo, no fim do mundo, aproximar-se-ão do fundamento as pedras, as pedras vivas, as pedras santas, para que se complete o edifício que teve início naquela Igreja; ou melhor, na mesma Igreja que agora, enquanto se edifica a casa, canta o cântico novo. Assim se expressa o próprio salmo: ‘Quando se edificava a casa depois do cativeiro’. E quê? ‘Cantai ao Senhor um cântico novo; cantai ao Senhor toda a terra’ (Ps. 95, 1). Quão grande é esta casa! Quando porém canta o cântico novo? Enquanto se edifica. Quando será a inauguração? No fim do mundo. O fundamento dela já foi inaugurado, porque subiu ao céu e não morre. Também nós, quando ressuscitarmos para nunca mais morrer, seremos então inaugurados”.
• Depois, há que atender à sucessão de eventos profetizada nas Escrituras: a apostasia do mundo e na Igreja;[24] o advento do derradeiro Anticristo, o homem do pecado, o filho da perdição;[25] a morte desse iníquo pelo “espírito da boca” do Senhor;[26] a conversão do povo judeu e seu efeito geral;[27] e, por fim, o segundo advento do Senhor ou Parusia, etc.[28] Pois bem, atendendo assim à referida sucessão de eventos, não é de fácil aceitação que se deem duas ou mais apostasias do mundo e na Igreja antes que enfim se dê a Parusia. Ademais, como vimos, Romanos 11, 11-12 indica certa consequência da morte do Anticristo e da conversão dos judeus. Interpreta-o assim, com outros, o Père Augustin Berthe (em Jésus-Christ, sa vie, sa passion, son triomphe): congraçados então os gentios e os pagãos na mesma fé, o mundo tornará a reger-se por Cristo, o que prosseguirá “por tanto tempo quanto for necessário para que se complete o número de seus eleitos. Quanto anos? Quantos séculos? Esse é um segredo que ele não revelou a ninguém. Tudo o que sabemos por suas últimas predições é que um dia a agonia do mundo soará”, ou seja, um dia se dará o fim do mundo e a Parusia. Mas Santo Tomás admite outra interpretação, mais estrita, destes dois versículos de São Paulo. Com efeito, […] os que enganados pelo Anticristo tiverem caído totalmente serão, após a conversão dos judeus, restituídos em seu primeiro fervor. E ainda, assim como, após a queda dos judeus, os gentios se reconciliariam com suas antigas inimizades, assim também, após a conversão dos judeus, sendo então iminente o fim do mundo, se dará a ressurreição geral, e por ela os homens, de mortos que estavam, voltarão à vida imortal” (destaque nosso).[29]
• Como quer que seja, parece que, após o tempo mais ou menos longo (ou ínfimo) que se seguirá à conversão dos judeus, não tornará a dar-se apostasia das nações, nem dos judeus, nem na Igreja;[30] e tal tempo não se desdobrará senão, ainda, para a completação do número dos eleitos.
Por isso mesmo é que, conquanto, por não sabermos quantos e quem são os eleitos, Deus queira que rezemos pela salvação de todos os homens, havemos de entendê-lo, teologicamente, como ordenado propriamente e ultimamente ao mundo dos eleitos.
Dê-se, assim, a solução das objeções.
1. Quanto à primeira objeção, deve dizer-se que se concede, se se trata de mundo tomado no sentido de todo o mundo, toda a gente. Mas tal uso da palavra “mundo” é de todo inusual.
2. Quanto à segunda, deve dizer-se que, se a graça não suprime a natureza política ou social do homem, também é certo, todavia, que esta mesma natureza, como também, mutatis mutandis, a virtude nutritiva e a geracional do homem, não passará de certa recordação na Jerusalém Celeste: nesta, com efeito, os homens terão o intelecto deiformado para viver de contemplar a Deus por essência, e segundo isso serão antes como anjos.
3. Quanto à terceira, deve dizer-se que, como dito na resposta, não há nada de ilícito em rezar pela salvação ou recristianização do mundo. Mas, como dito ainda na resposta, se se atende ao profetizado nas Escrituras, não parece provável que o mundo se recristianize antes da morte do Anticristo e da conversão dos judeus.

Quanto ao que se põe contrariamente, deve dizer-se que a esperança dos novos céus e da nova terra não é oposta à cristianização do mundo, que resulta da ordem dada por Cristo a seus discípulos: “Ide e ensinai a todas as gentes, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mat. 28, 19). Antes, a cristianização do mundo está para o que assim se espera como um meio para o fim. – Mas de fato não se deve rezar pela salvação do mundo se isto se entende no sentido impugnado pela fé.


[1] Summa Theol., I, q. 1, a. 8, ad 2.
[2] Cf. Mat. 24, 35.
[3] Cf. Is. 66, 22; 2 Pedr. 3, 13; Ap. 21, 1-5.
[4] Lib. I, cap. 153-171.
[5] 2 Pedr. 3, 13.
[6] 1 Jo. 2, 15-16.
[7] Tiag. 4, 4.
[8] Mat. 18, 7.
[9] 1 Jo. 5, 19.
[10] Jo. 15, 18-19.
[11] Jo. 14, 30.
[12] Jo. 16, 11.
[13] 1 Jo. 5, 4.
[14] Jo. 3, 17.
[15] Cf. Jo. 3, 16, e Rom. 8, 32.
[16] Mat. 26, 27-28.
[17] 14, 24.
[18] Ambas as passagens extraímo-las tais quais se encontram na Bíblia Sagrada traduzida da Vulgata e anotada pelo Padre Matos Soares (15.ª ed., São Paulo, Edições Paulinas, 1962). – Em La Santa Biblia, traducción directa de los textos primitivos por Mons. Dr. Juan Straubinger (La Plata, Universidad Católica de La Plata, 2007), as mesmas passagens encontram-se assim: “Bebed de él todos, porque esta es la sangre mía de la Alianza, la cual por muchos se derrama para remisión de pecados” (Mat. 26, 27-28); “Esta es la sangre mía de la Alianza, que se derrama por muchos” (Marc. 14, 24).
[19] Jo. 18, 36.
[20] 1 Cor. 7, 31.
[21] 1 Cor. 5, 9-10.
[22] Em Da Cidade de Deus.
[23] “Deve dizer-se que [o Império Romano] não cessou, senão que se comutou de temporal em espiritual, como diz o Papa Leão no sermão sobre os apóstolos. E por isso se deve dizer que a apostasia do Império Romano [referida em 2 Tessalonicenses] se entende não só do temporal, mas do espiritual, ou seja, da fé católica da Igreja Romana. Mas este sinal é conveniente, porque, assim como Cristo veio quando o Império Romano dominava sobre todos, assim também, inversamente, um sinal do Anticristo é a apostasia daquele” (Tomás de Aquino, Comentário à Segunda Epístola aos Tessalonicenses, caput 2, lectio 1).
[24] 2 Tess. 2, 3.
[25] 2 Tess. 2, 3.
[26] 2 Tess. 2, 8. – “… com o espírito de sua boca, isto é, com seu mandato; porque Miguel há de matá-lo no monte das oliveiras, de onde Cristo ascendeu… [Dicendum est, quod nondum cessavit, sed est commutatum de temporali in spirituale, ut dicit Leo Papa in sermone de apostolis. Et ideo dicendum est, quod discessio a Romano imperio debet intelligi, non solum a temporali, sed a spirituali, scilicet a fide Catholica Romanae Ecclesiae. Est autem hoc conveniens signum, quod sicut Christus venit quando Romanum imperium omnibus dominabatur, ita e converso signum Antichristi est discessio ab eo]” (Tomás de Aquino, Super II Epistolam B. Pauli ad Thessalonicenses lectura, caput 2, lectio 2).
[27] Rom. 11, 11-12: “Digo, pois: Porventura tropeçaram eles [os judeus] de modo que caíssem [para sempre]? Não, certamente. Mas por seu delito veio a salvação para os gentios, para incitá-los à emulação. Ora, se seu delito foi a riqueza do mundo, e sua redução a riqueza dos gentios, quanto mais [não o será] sua plenitude? [Dico ergo : Numquid sic offenderunt ut caderent ? Absit. Sed illorum delicto, salus est gentibus ut illos æmulentur. Quod si delictum illorum divitiæ sunt mundi, et diminutio eorum divitiæ gentium : quanto magis plenitudo eorum?]”.

[28] Apoc. 20, 11 s.; 21. – Ponha-se, porém, que nenhum curso histórico é linear, senão que sempre consta de idas e vindas não raro inesperadas; além de que uma coisa é o desenho profético de dada sucessão de acontecimentos – e as profecias são como uma vista aérea de determinado terreno e seus acidentes geográficos –, outra o percurso que se faz nesse mesmo terreno, percurso que, pela própria natureza das coisas, não pode deixar de topar com surpresas e eventos súbitos.

[29] “Vel etiam qui totaliter cadent decepti ab Antichristo, Iudaeis conversis in pristinum fervorem restituentur. Et etiam sicut Iudaeis cadentibus, gentiles post inimicitias sunt reconciliati, ita post conversionem Iudaeorum, imminente iam fine mundi, erit resurrectio generalis, per quam homines ex mortuis ad vitam immortalem redibunt” (Super Epistolam B. Pauli ad Romanos lectura, caput 11, lectio 2).
[30] Resta, porém, conciliar o dito com Apocalipse 6, 13-17. Fica para outro lugar; mas diga-se que antes parece – apenas parece – condizer com a última interpretação de Rom. 11, 11-12 admitida por Santo Tomás. 

Querem um esporte reto e honrado? Cumpram os mandamentos


Carlos Nougué
Por ocasião da próxima Copa do Mundo, meditemos um pouco sobre o esporte. Sim, porque que fim ou fins buscam os homens quer com as várias modalidades de atletismo, quer com os diversos esportes coletivos?
Ora, relembremos o que essencialmente se disse em alguns artigos sobre a música: a arte ordena-se ou deve ordenar-se a um de quatro fins, adquirindo porém cada um desses fins caráter de meio com relação ao fim último do homem. Tal caráter de meio decorre de um fato ineludível, assim expresso filosoficamente: é impossível à vontade humana desejar ao mesmo tempo objetos diversos como fins últimos. (Para o perfeito entendimento desse princípio, leia-se Santo Tomás, Suma Teológica, Ia-IIae, q. 1, a. 5, artigo intitulado, precisamente, “Pode um homem ter muitos fins últimos?”.)
Pois bem, algo semelhante sucede com o esporte: porque, como disse há mais de 50 anos o grande Papa Pio XII em Esporte e Ginástica, “tudo o que serve para a consecução de determinado fim deve extrair sua regra e sua medida de tal fim. Ora, o esporte e a ginástica têm como fim próximo educar, desenvolver e fortificar o corpo em seu aspecto estático e dinâmico; como fim mais remoto, a utilização, por parte da alma, do corpo assim preparado para o desenvolvimento da vida interior ou exterior da pessoa; também como fim mais profundo, contribuir para a sua perfeição; por último, como fim supremo do homem em geral e comum a toda e qualquer forma de atividade humana [grifo nosso], aproximar o homem de Deus”.
Estabelecidos assim os fins do esporte em geral, “segue-se que neles se deve aprovar tudo quanto serve para alcançar os fins indicados, naturalmente na ordem que lhes convém; deve-se rejeitar, pelo contrário, tudo quanto não conduz a tais fins, ou se afasta deles, ou sai do lugar que lhes é [devidamente] atribuído” (idem), exatamente, aliás, como no caso da música e da arte em geral.
Não que o senso religioso e moral desconheça e rejeite o que é próprio do corpo (que é o fim próximo do esporte) ou a necessidade estética do homem (que é o fim próximo da arte [no sentido moderno]). Mas vai muito além e, ensinando a relacioná-los com a sua primeira origem, atribui-lhes “um caráter sagrado de que as ciências naturais e a arte não têm, de per si, nenhuma ideia” (idem).
Sim, porque Deus coroou a criação visível formando do barro o corpo humano e “inspirou-lhe na face”, prossegue Pio XII, “um sopro de vida que fez do corpo a habitação e o instrumento da alma, o que é o mesmo que dizer que, com isso, elevou a matéria ao serviço imediato do espírito” (idem). Estava preparado o corpo humano, portanto, para receber a dignidade de templo de Deus, “com aquelas prerrogativas, também superiores, que correspondem a um edifício a Ele consagrado” (idem), razão por que dizia o Apóstolo: “Glorificai e levai Deus no vosso corpo”, que “pertence ao Senhor” (ver Cor., VI, 13, 15, 19-20).
Por tudo isso, se é verdade que o esporte não deve temer de modo algum tais princípios religiosos e morais, é preciso, no entanto, excluir dele algumas coisas que se opõem ao que acaba de ser indicadotal como se deve fazer na música e na arte em geral. É ainda do Papa a palavra: “A sã doutrina ensina a respeitar o corpo, mas não a estimá-lo mais que o devido. A máxima é esta: Cuidado do corpo, fortalecimento do corpo, sim; culto do corpo, divinização do corpo, não”, porque “o corpo não ocupa no homem o primeiro lugar, nem o corpo terreno e mortal, como é agora, nem o glorioso e espiritualizado, como será um dia. Ao corpo tirado do barro não cabe a primazia no composto humano, a qual corresponde ao espírito, à alma espiritual” (Pio XII, Esporte e Ginástica).
Além do mais, assim “como há uma ginástica e um esporte que com sua austeridade concorrem para refrear os instintos, assim também há formas de esporte que os despertam, quer com uma força violenta, quer com as seduções da sensualidade. Ainda do ponto de vista estético, com o prazer da beleza, com a admiração do ritmo na dança e na ginástica, o instinto pode inocular seu veneno nas almas. Há, além disso, no esporte e na ginástica, na rítmica e na dança, certo nudismo que não é necessário nem conveniente. Não sem razão […] disse um observador totalmente imparcial: ‘O que interessa à massa neste campo não é a beleza do nu, mas o nu da beleza’. Diante de tal maneira de praticar a ginástica e o esporte, o senso religioso e moral põe seu veto” (idem), assim como o põe na arte em geral.
Mais ainda, na própria prática do esporte devem ou deveriam ser observados certos requisitos, como “franqueza, lealdade, cavalheirismo”, que excluem, “como a uma mácula infamante, o emprego da astúcia e do engano” (idem), devendo o bom nome e a honra do adversário ser tão queridos e respeitados como os próprios.
O fato evidente, porém, é que no mundo moderno o esporte (como a arte) desatende a tudo quanto se disse acima. Mais que nunca, ele transformou-se em ídolo, e não raro em objeto supremo da vida. Mas, assim como a arte, o esporte deveria “converter-se quase numa ascese de virtudes humanas e cristãs […], por mais penoso que seja o esforço exigido, a fim de que o exercício do esporte se supere a si mesmo, consiga um de seus objetivos morais e seja preservado de desvios materialistas que rebaixariam seu valor e nobreza. Aí está resumido o que significa a fórmula: Querem agir retamente na ginástica, no jogo, no esporte? Guardem os mandamentos em seu sentido objetivo, simples e preciso” (idem).
Ora, se o esporte não se converte em tal, mas antes em ídolo, é porque o mundo atual já se esqueceu culpavelmente do principal dos mandamentos do Decálogo: Eu sou o Senhor teu Deus, e tu não terás outro Deus além de mim, “nem sequer o próprio corpo nos exercícios físicos e no esporte’, o que representaria “quase uma volta ao paganismo” (idem).
Mais de cinquenta anos após o saudoso Papa Pio XII ter escrito isso, já se deu cabalmente tal volta ao paganismo. Mais que isso, porém: se o mundo pagão como que ansiava uma justiça e uma verdade que ele não podia alcançar por si mesmo, o mundo atual, neopagão, impugna a própria Verdade e Justiça, que, feita Carne, habitou entre nós.