RESPOSTAS DO PROFESSOR NO CORPO
DO E-MAIL DO ALUNO
(1) O Sr. foi bastante claro, mas eu preciso entender melhor a resposta. Relendo agora minha pergunta, talvez eu tenha sido pouco específico. Dada a relação: coisa-imago-signo, se nego essa triangularidade (por hipótese, pois me parece absurdo negá-la) e digo que só há a bipolaridade coisa-signo, cairei eu fatalmente no nominalismo? Suponha uma “argumentação” moderníssima da seguinte estirpe (carregando nas cores): “o que você chama de imagem é uma abstração inútil e que não tem qualquer fundamento na ordem do ser, é mera invencionice medieval, só há coisa e signo”. Posso eu concluir que o “sábio” que profira tais palavras é um nominalista? (Provavelmente o argumento da “possibilidade de tradução”, dado em aula, ou talvez a simples existência da linguagem, bastaria para provar a existência das imagens, mas enfim…). Eu faço essa pergunta pelo seguinte: se só existissem coisa-signo (hipótese absurda), então o signo referir-se-ia unicamente às coisas particulares, substância + acidentes, não havendo, portanto, universais. Nesse caso, o nominalismo seria uma necessidade lógica, me parece. É assim?
RESPOSTA. Não me parece que dizer que só há signo e coisa implique nominalismo. Ser nominalista é dizer que os nomes que damos às coisas não significam sua essência, isso independentemente de que o signifiquem diretamente ou mediante os conceitos mentais. – Quanto à prova da existência dos conceitos, sim, a tradução é uma prova suficiente, mas há outras: por exemplo, os homens podem pôr-se de acordo quanto a pensar, em diversas línguas, num mesmo assunto.   
2) Quanto à resposta, não estou certo se entendi por que implicaria em nominalismo crer que as paixões da alma não são imagens fiéis das coisas. Nessa hipótese, as imagens, mesmo que ‘não-fiéis’, não teriam ainda (essas imagens, as intelectivas) a propriedade da universalidade? E, a tendo, haveria ainda nominalismo?
RESPOSTA. Parece-me que a isto reponde a resposta anterior. Mas insista-se: quando se fala de fidelidade ou não fidelidade, fala-se com respeito às essências.
3) Eu não sei o porquê de o Sr. dizer “se se diz que o signo significa diretamente a coisa, cai-se, digamos, em certo hiper-realismo”. Poderia dizer mais a esse respeito? Eu penso no hiper-realismo a presunção de que as imagens existem em algum lugar, que são atuais, são entes propriamente ditos. Me equivoco?

RESPOSTA. Foi só uma maneira de dizer, donde o “digamos”. Seria, “digamos”, um hiper-realismo quanto ao signo, porque este seria capaz de imitar por si mesmo a coisa, a realidade. – Mas propriamente falando hiper-realismo é o considerar, como Platão, que as essências são substâncias e têm existência à parte, em vez de tê-la nas coisas singulares.
4) Outro ponto, o senhor disse: “Implica nominalismo se se crê que as paixões da alma não são imagens, ou seja, se se crê que não são imagens fiéis das coisas.” E também: “O kantismo diz: não há paixões na alma que sejam imagens das coisas”. O Sr. concebe o kantismo como uma espécie de nominalismo?
RESPOSTA. Não, kantismo é uma mescla de idealismo e de solipsismo. O kantismo nega a evidência do que nos fornecem os sentidos; e isto o nominalismo não faz, até porque para ele o único que existe são as coisas individuais, a multiplicidade. 
5) Sobre esse trecho “o kantismo supõe impossível o conhecimento das coisas em si pela razão”, o kantismo POSITIVAMENTE supõe como impossível ou é como que um “agnóstico”, que não sabe se tal conhecimento é possível ou não? Desculpe o preciosismo, é que Kant é muito relevante no direito e gostaria que o Sr. pudesse esclarecer. Parece-me relevante essa distinção, porque, por exemplo, no primeiro caso, Kant incorreria em contradição lógica (“é impossível conhecer as coisas em si pela razão, mas eu SEI que elas são incognoscíveis”), ao passo que, se for um agnóstico, a contradição já não é assim tão chapada.
RESPOSTA. Todas as doutrinas filosóficas pós-tomistas são autocontraditórias, e são-no exatamente porque negam de algum modo algo evidente. Kant nega a evidência da existência extramental das coisas. Ockham, por seu lado, nega a evidência de que as essências se dão na realidade das coisas. – Para Kant, sim, não podemos conhecer em si a realidade extramental; só podemos “conhecê-las” mediante categorias que ele chama a priori. Mas como então as podemos saber reais e verdadeiras? Porque, responde Kant, Deus não nos enganaria. E esta é uma solução pietista, não científica.
6) (2) Perfeito. Não era minha intenção sugerir que na aula foi dito que é possível apreender algo saltando a primeira operação, desculpe se o fiz. Apenas formulei a pergunta sobre a possibilidade ou não de tal salto porque nem tudo parece ser apreendido pelo uso dos sentidos externos. Pelo que entendi, é possível uma apreensão “por contraste”, por comparação e isso ainda se dá na primeira operação. Pelos sentidos internos?
RESPOSTA. Quanto ao objeto próprio da nossa maneira de conhecer, ou seja, os sensíveis, tudo tem de passar necessariamente pelos sentidos externos e depois pelos internos.
7) As demais respostas foram tranquilas. Quanto ao “ápice da metafísica” e a necessidade de parcimônia, tenha a certeza de que tomarei nota dos conselhos. Mas, como eu disse, li apenas partes dos Comentários à Metafísica e, se o fiz, foi precisamente porque o próprio professor fez menção ao Livro III da Metafísica ao me responder (doc. Dúvidas 05) a respeito da substância enquanto gênero máximo. Eu apenas fui conferir mais de perto o que dizia Aristóteles e, aproveitando a viagem, li também o que S. Tomás comentava a respeito. Creio ter sido uma busca natural, e não um atropelo.
RESPOSTA. Muito bem.
8) Pois bem, o que me levou até lá foi: se substância é o gênero máximo no qual se pode classificar o ente (e até então as outras 9 categorias não haviam sido apresentadas), e se acidentes não são substâncias, então acidentes não se classificariam entre os entes, porque, sendo acidentes, evidentemente não poderiam ser espécie de “substância”, o gênero máximo até então apresentado. Ora, mas, acidentes são entes!
RESPOSTA. Mas os acidentes são entes tão só em abstrato e secundum quid.  
9) Foi isso o que me levou a pensar: deve haver então um gênero acima de substância e que abranja substância e os acidentes, o que apontaria para o fato de que a substância não é gênero máximo (isso deu ensejo a minha primeira pergunta a esse respeito). O problema é que, “acima” de substância, só haveria o “ente” como gênero, mas o “ente”, enquanto gênero, é exatamente o que Aristóteles nega na III Metafísica, conforme o professor apontou. Eu fui então ver o que exatamente o filósofo tinha a dizer, visitando também o Angélico. Mas nesse meio tempo as outras categorias foram apresentadas no curso e minha dúvida foi parcialmente sanada: de fato, os acidentes são entes, mas secundum quid e em abstrato, e não simpliciter e in concreto (como as substâncias), e eles (acidentes) possuem categorias próprias, que são gêneros supremos tais qual a substância. Perfeito, eu já não tinha então o problema de em qual gênero classificar os acidentes, porque os gêneros máximos são múltiplos (10 categorias) e não apenas o da substância. Mas resta saber a razão pela qual não pode o “ente” ser gênero. E é aí onde estou. Pelo que entendi: ente não pode ser gênero porque faltaria diferença específica para determinar-lhe as espécies. Pois, sendo ente aquilo que tem ser, restaria como diferença específica aquilo que não tem ser. Mas o que não tem ser não é nada, portanto, não haveria diferença específica disponível. OK. Mas, ainda assim, há algo COMO QUE uma diferença específica: se ente fosse gênero, a diferença específica entre substância e acidentes seria a de que um é ente simpliciter e outro é secundum quid. Agora, isso não parece ser exatamente uma diferença específica, porque não interfere propriamente na essência, ambos são “aquilo que tem ser”, pura e simplesmente. Há apenas como que uma diferença de grau. Por que o “simpliciter e in concreto” vs “secundum quid e in abstrato” não são diferenças específicas? Tomás comentando Aristóteles (não me está claro o argumento): Sed communissima omnium sunt unum et ens, quae de omnibus praedicantur: ergo unum et ens erunt principia et substantiae omnium rerum. Sed hoc est impossibile; quia non possunt omnium rerum esse genus, unum et ens: quia, cum ens et unum universalissima sint, si unum et ens essent principia generum, sequeretur quod principia non essent genera.
RESPOSTA. Por partes.
Simpliciter e secundum quid e em concreto e em abstrato não podem ser distinção quiditativa alguma, nem pois diferença específica, simplesmente porque não constituem quididades ou essências.
• Quanto a ente não ser gênero. Não o é por algumas razões.
a) Uma delas é a dita no trecho do Comentário à Metafísica que você traz: como o ente é o princípio de todos os gêneros, e como os princípios não são os próprios gêneros de que são princípios (“scilicet quod principia non sunt genera”, diz o Aquinate logo depois), por isso mesmo o ente não é gênero. Em outras palavras: o que é princípio de algo não é este mesmo algo.
b) Qualquer gênero pode dividir-se em quididades com alguma distinção essencial entre si. Assim, o gênero máximo “substância” divide-se em viventes e não viventes. Pois bem, se ente fosse gênero, deveria dividir-se semelhantemente. Tente então fazê-lo: o gênero ente se divide em… Impossível. Poderia todavia supor-se: divide-se em substâncias e acidentes. Mas isto é impossível, porque, como já vimos, os acidentes não têm simpliciter quididade; logo, não constituem quididade genérica distinta da quididade genérica substância.

c) Assim como nas demonstrações (cf. De veritate, q. 1, corpus), também é necessário fazer aqui uma redução a certos princípios evidentes por si. De outro modo, ir-se-ia ao infinito e tornar-se-ia impossível toda e qualquer ciência das coisas. Pois bem, o ente é o que primeiro o intelecto concebe, e é nele que o intelecto resolve todas as concepções. Se assim é, é necessário que todas as outras concepções do intelecto se formem como adições ao ente. E nada estranho pode acrescentar-se ao ente, à maneira como a diferença se acrescenta ao gênero ou o acidente à substância. É que toda e qualquer natureza é ente. – Mas diz-se, sim, que se acrescenta algo ao ente enquanto se exprime um modo do próprio ente não expresso pelo nome “ente”, e isso de dois modos. “De um primeiro modo”, diz S. Tomás, “quando o modo expresso é um modo especial do ente. São diversos os graus de entidade segundo os quais se tomam os diversos modos de ser, e segundo estes modos se consideram os diversos gêneros das coisas: a substância não adiciona ao ente nenhuma diferença que designe nenhuma natureza sobreacrescentada ao ente, senão que pelo nome ‘substância’ se exprime certo modo especial de ser, ou seja, o ente por si, e assim para os demais gêneros. De um segundo modo, quando o modo expresso é um modo geral que se segue a todo ente…” – mas aqui já se trata dos transcendentais, que trataremos num Apêndice de nosso curso.

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