PERGUNTA DO ALUNO
Ingenuamente questiona-se a asserção de que a vontade sempre busque um bem universal, nomeando ocasiões em que há indivíduos claramente cobiçosos de algo realmente ruim. Ao que se responde, parece-me, delineando as relações entre as potências da alma e mostrando que o intelecto pode levar a vontade a querer algo mau, por um erro seu, isto é, quando eventualmente não indicar à vontade o que é verdadeiramente bom, mas apenas algo que tem aparência de bom, sem sê-lo real e verdadeiramente.
Pois bem, eis minha pergunta: poderia argumentar-se também neste caso – e até principiologicamente – que a vontade jamais pode querer o mal – especialmente o mal simpliciter – porque o mal não-é? Afinal, o mal, não-sendo, não-pode ser objeto da vontade, donde proveria a necessidade de que a vontade quisesse o bem, e sempre o bem.
RESPOSTA DO PROFESSOR

Vou por partes.
1) Antes de tudo, o mal não é propriamente um nada, mas a privação de um bem, e tal privação sempre se dá num bem. Analogia clássica: imagine-se que o bem seja uma parede, e o mal uma privação de parede: por exemplo, uma janela. Imagine-se agora que se ampliem as dimensões de tal mal (a janela) até que se iguale às dimensões de tal bem (a parede). Que sucederia? Não só desapareceria o bem (a parede), mas o próprio mal (a janela).
2) Depois, não é pela razão indicada que a vontade não pode querer o mal para si. A vontade não pode querer o mal para si porque cada um de nós não pode querer senão o bem e a felicidade para si próprio. Tome-se o caso do suicida: no momento em que escolhe suicidar-se, isto se lhe afigura um bem, sem o qual lhe sucederiam os males de que quer livrar-se.
3) Mas então nada é mau, nada é um mal? É claro que o é, e em duplo sentido:
a) Antes de tudo, em si mesmo. Por exemplo, o assassinato (excluídos os casos de legítima defesa, etc.) é sempre um mal, porquanto fere um dos primeiros princípios da razão prática, ou seja, um dos primeiros princípios da Lei Natural (princípios que apreendemos mediante a sindérese, que é um habitus inato a nós, assim como apreendemos os primeiros princípios teóricos mediante, precisamente, o habitus dos primeiros princípios da razão especulativa, também inato a nós).
b) Depois, em razão da ordenação essencial do homem ao Bem ou Fim último (e, como a meios com respeito a este Fim, a si mesmo, ao matrimônio, à família, à sociedade). Assim, certo cometido pode não ser um mal por um ângulo e sê-lo por outro. Dê-se um exemplo bem simples: apetecer as frutas de certa árvore não é um mal, mas o será se esta árvore pertencer a outro e este outro não autorizar que sejam colhidas por ninguém de fora de sua família (excluído o caso, defendido por Santo Tomás, da chamada apropriação famélica, que é lícita, em especial se feita às claras).  
4) Pergunte-se então: em que sentido é um mal o suicídio (ainda que se afigure um bem ao suicida)? No duplo sentido indicado acima: porque é um assassinato de si mesmo, e porque ofende gravemente a ordem ao Fim último: se foi Deus quem nos deu a vida, só ele no-la pode tirar (ou deixar que no-la tire a natureza, o que, afinal, absolutamente não contradiz o anterior). 

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