A liberdade segundo Santo Tomás (II): «Se todas as coisas apetecem a Deus mesmo»

C. N.

(Exposição)

 

Se todas as coisas apetecem a Deus mesmo[1]

A maioria das coisas apetece naturalmente a Deus – atenção! – implicitamente, não explicitamente. Para mostrá-lo, diga-se, com efeito, que toda causa segunda só pode influir sobre seu efeito na medida em que recebe da causa primeira – e Deus é a causa primeira de tudo e em todos os sentidos – a virtude ou poder para isso. Pois bem, há quatro causas (a eficiente, a material, a formal e a final), mas aqui não nos interessa senão duas delas (a eficiente e a final). Desse modo, assim como para a causa eficiente (ou seja, a causa «fazedora») influir é agir, assim também para a causa final (ou seja, a causa das causas, aquela em razão da qual ou em ordem à qual a causa eficiente faz algo) influir é ser apetecida ou desejada. Por isso mesmo, assim como o agente ou causa eficiente segunda só age graças à virtude ou poder que lhe vem do agente ou causa primeira, assim também o fim segundo só é apetecido graças ao que lhe vem do fim primeiro (também e mais propriamente dito último, porque, embora seja o primeiro na intenção, é o último na consecução ou conseguimento): porque, com efeito, de algum modo a causa segunda se assemelha à primeira. Desse modo, assim como Deus, por ser o agente ou causa eficiente primeira, age em todos os outros agentes (segundos), assim também Deus, por ser o fim último, é apetecido por todos os outros fins (ou seja, todos os outros fins se ordenam a Deus).
Mas isso, se considerado em geral, é justo apetecer a Deus implicitamente. De fato, a virtude ou poder da causa primeira está na causa segunda assim como os primeiros princípios estão nas conclusões.[2] Mas reduzir analiticamente as conclusões a princípios,[3] ou reduzir as causas segundas às primeiras, pertence tão somente à virtude ou potência racional. Sendo assim, apenas a natureza racional pode ordenar a Deus mesmo os fins segundos mediante certa análise ou resolução, de maneira que apeteça a Deus explicitamente. Desse modo, assim como nas ciências a conclusão só será correta mediante a redução analítica aos primeiros princípios, assim também o apetite da criatura racional só será reto se apetecer explicitamente a Deus mesmo.
Acrescentem-se as seguintes precisões.
• Deus pode ser conhecido de dois modos: ou em si mesmo, ou em seus efeitos. Se conhecido em si mesmo, ou seja, enquanto é por essência a própria bondade, não pode ser amado por nós, nesta vida.[4] Nesta vida, não o podemos conhecer senão por seus efeitos, ou seja, por sua criação, e só segundo isto, portanto, há de ser apetecido ou amado.
A criatura racional é propriamente a única capaz de Deus, porque é a única que o pode amar e conhecer explicitamente. Mas as demais criaturas participam de algum modo da semelhança de Deus, e por isso a seu modo apetecem a Deus.
Note-se porém que para nós, nesta vida, a necessária identidade entre Deus e o fim último do homem – ou seja, a felicidade ou beatitude – não é evidente, ou seja, o homem não a reconhece necessariamente, ao contrário do que se dá, por exemplo, com o fato de o quadrado ter lados e ângulos iguais ou com o de a soma de 1 + 1 ser igual a 2: o reconhecimento deles pelo intelecto é de caráter necessitante. Com efeito, diz Santo Tomás de Aquino: “Há bens particulares que não têm vinculação necessária com a beatitude, porque se pode ser beato [bem-aventurado] sem eles. A tais bens a vontade não adere necessariamente. Mas há outros bens que têm vinculação necessária com a beatitude, ou seja, aqueles pelos quais o homem adere a Deus, o único em que se encontra a verdadeira beatitude. Antes porém que a necessidade dessa vinculação seja demonstrada pela certeza da visão da divindade [a visão beatífica], a vontade não adere necessariamente a Deus nem às coisas que são de Deus. Mas a vontade de quem vê a Deus por sua essência adere necessariamente a Deus, assim como agora queremos necessariamente ser felizes. É patente, portanto, que a vontade não quer necessariamente tudo o que ela quer” (Suma Teológica, I, q. 82, a. 2). Para que nesta vida se reconheça a identidade entre Deus e a felicidade do homem, é preciso, antes de tudo, conhecer que Deus é, e, ademais, concluir por tal identidade (o que muito ordinariamente depende da própria revelação divina); ora, nem aquele conhecimento nem o objeto desta revelação são evidentes; logo, nesta vida, nunca tal identidade se dará necessariamente.[5] Voltaremos a este ponto.
(Continua.)

[1] Vide Santo Tomás de Aquino, De Verit. q. 22, a. 2; Super Sent. I, d. 3, q. 1, a. 1, ad 2 e II, d. 1, q. 2, a. 1-2 ; Cont. Gent. III, cap. 17-18; Sum. Th. I, q. 6, a. 1, ad 2 e q. 44, a. 4; Comp. Theol., cap. 100-101.
[2] Por exemplo, muitas conclusões da geometria se seguem do princípio de que o todo é maior que a parte. Se pois se seguem deste princípio, é porque este mesmo princípio se encontra nelas, assim como a causa primeira se encontra na causa segunda.
[3] Ou seja, falando tecnicamente, resolvê-las em princípios.
[4] Por isso, todavia, é amado em si mesmo pelos que o veem por essência, ou seja, os homens e os anjos bem-aventurados. E, com efeito, tanto mais se ama a Deus quanto mais se conhece a Deus mesmo. (Como se verá, ademais, contra a equivocada opinião de Duns Scot, o bem-aventurado já não pode pecar, porque seu intelecto já descansa na Verdade, e sua vontade já está definitivamente fixada por uma caridade perfeita. Nesse sentido, o bem-aventurado não apetece propriamente a Deus, senão que propriamente o ama.) Por outro lado, nesta vida mais vale amar a Deus que conhecê-lo, e é justamente segundo o grau deste amor que, na beatitude eterna, os bem-aventurados veem mais ou menos perfeitamente a Deus. Nossa Senhora, por conseguinte, é o beato humano que mais perfeitamente vê a Deus por essência.
[5] Cf. ainda para o tema, Santo Tomás de Aquino, De veritate, X, 12, especialmente ad 5; XXII, 7; Suma contra os Gentios, I, I, 6 e 11; Suma Teológica, I, q. 2, a. 1, ad 1; I, q. 82, a. 1-2; etc. Em sentido contrário, cf. por exemplo R. Garrigou-Lagrange, El realismo del principio de finalidadop. cit., pp. 201-219; e Dios. I. Su existencia, Madri, Ediciones Palabra, 1976, p. 240-270.

Novo curso (pago) de Carlos Nougué: «O melhor regime político segundo Santo Tomás (e o atual momento brasileiro)»


O Melhor Regime Político
segundo Santo Tomás
(e o atual momento brasileiro)
Curso on-line de 18 horas ministrado por 
Carlos Nougué

 “A felicidade última do homem está na contemplação da Verdade.”
Santo Tomás de Aquino
[Comunicado 1]
ABERTURA DAS INSCRIÇÕES PARA O CURSO
1) A partir do dia 4 de julho próximo, estarão abertas as inscrições para o curso on-line O Melhor Regime Político segundo S. Tomás (e o atual momento brasileiro), de 18 horas, divididas em 12 aulas de cerca de uma hora e meia cada uma.
2) As inscrições far-se-ão em nosso site:
VALOR E FORMAS DE PAGAMENTO
1) Valor total:
a) ou R$ 180,00 em até 6 parcelas sem juros no cartão de crédito;
b) ou R$ 165,30 por pagamento à vista mediante débito on-line ou boleto bancário.
Observação. O pagamento se fará, em nosso próprio site, mediante o PagSeguro.
2) Ao pagarem, os alunos-subscritores receberão automaticamente uma senha de acesso aos vídeos-aula e à bibliografia; e aos que se inscreverem em julho enviar-se-á, no mesmo mês e ao endereço posto por eles mesmos no cadastro, o livro Estudos Tomistas – Opúsculos.
INÍCIO E DURAÇÃO DO CURSO 
1) O curso se iniciará no mesmo dia 4 de julho próximo.
2) Os alunos-subscritores terão acesso aos vídeos-aula durante um ano a contar da data de inscrição.
EMENTA DO CURSO
I. Apresentação geral:
1. A Política segundo Santo Tomás.
2. Ciência da Política e Prudência Política.
II. Os regimes políticos segundo Santo Tomás.
1. A monarquia: virtudes e dificuldades; sua corrupção: a tirania.
2. A aristocracia: virtudes e dificuldades; sua corrupção: a oligarquia. 
3. A politia (ou democracia não democratista): virtudes e dificuldades; sua corrupção: a democracia democratista.
Excurso: A democracia dos 400 mil de Edmund Burke.
4. Os regimes mistos.
5. O regime misto assinalado por Santo Tomás como a melhor forma de regime.
III. A devida ordenação do poder temporal ao espiritual.
IV. A política na Cristandade.
IV. O progressivo fim da cristandade e suas razões.
V. A revolução e suas etapas.
§ As sementes.
1. O Renascimento, Henrique VIII e a chamada Reforma.
2. O naturalismo, o iluminismo e o liberalismo.
3. A Revolução Industrial Inglesa: o cercamento dos campos e a ruína da família camponês-obreira.
Excurso: Se a economia pode pensar-se autonomamente.
4. A Revolução Francesa: o esmagamento da monarquia e dos corpos intermediários, e da ordenação do poder temporal ao espiritual – a Igreja sitiada.
5. Marx, a Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa – a reação da Igreja e da Cristandade restante.
6. Antonio Gramsci; György Lucácks e seu “Terrorismo Cultural”; o chamado neomarxismo da Escola de Frankfurt: Max Horkheimer, Erich Fromm, Herbert Marcuse, Theodor W. Adorno, Jürgen Habermas, Walter Benjamin, entre outros;
7. A Segunda Guerra Mundial, a consolidação das democracias liberais, a expansão do comunismo.
8. O Concílio Vaticano II.
9. A vitoriosa revolução marcusiana – “É Proibido Proibir” e “A Imaginação no Poder” – e a queda do Muro de Berlim.
VI. O mundo atual e a preparação para o advento do Anticristo: questões político-teológicas.
VII. O Brasil atual: a ruína do regime republicano-partidário, e o crescimento do movimento monarquista.
CURRÍCULO DE CARLOS NOUGUÉ
I. Dados pessoais:
Nome: Carlos (Augusto Ancêde) Nougué;
Nacionalidade: brasileira;
Idade: 64 anos.
II. Qualificações profissionais:
1) Professor de Filosofia e de Teologia por diversos lugares;
2) Professor de Tradução e de Língua Portuguesa em nível de pós-graduação;
3) Tradutor de Filosofia, de Teologia e de Literatura (do latim, do francês, etc.);
4) Lexicógrafo.
III. Autor dos seguintes livros:
Suma Gramatical da Língua Portuguesa – Gramática Geral e Avançada (São Paulo, É Realizações, 2015, 608 pp.);
Estudos Tomistas – Opúsculos (Formosa, Edições Santo Tomás; por sair este mês);
Comentário à Isagoge de Porfírio (Formosa, Edições Santo Tomás; por lançar-se);
Comentário às Categorias de Aristóteles (Formosa, Edições Santo Tomás; por lançar-se);
Das Artes do Belo (São Paulo, É Realizações; por lançar-se);
A Necessidade da Física Geral Aristotélica (São Paulo, É Realizações; por lançar-se como estudo introdutório da tradução do Comentário de Santo Tomás à Física de Aristóteles).
Do Papa Herético (Formosa, Edições Santo Tomás; por lançar-se).
IV. Outros cursos on-line ministrados por Carlos Nougué:
V. Responsável pelas seguintes páginas web:
• Estudos Tomistas (www.estudostomistas.com.br);
• A Boa Música (www.aboamusica.com.br).
Observação geral. Há em nosso site uma seção chamada Perguntas Mais Frequentes (F.A.Q.), em que cremos responder a todas as possíveis dúvidas a respeito do Curso. Caso, porém, persista alguma dificuldade, escreva-se a Marcel Barboza ([email protected]).
CAPA DO LIVRO ESTUDOS TOMISTAS – OPÚSCULOS 

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Uma iniciativa conjunta
Central de Cursos Contemplatio
Associação Cultural Santo Tomás

A liberdade segundo Santo Tomás (I): «Se todas as coisas apetecem o bem»

C. N.
(exposição)
Se todas as coisas apetecem o bem[1]
Efetivamente, todas as coisas apetecem o bem. E insista-se: todas as coisas, não só as que conhecem de qualquer maneira, mas ainda as desprovidas de todo e qualquer conhecimento. Se assim não fosse, como o prova Aristóteles no livro II da Física, tudo se daria ou se produziria por acaso. Ora, o que se produz por acaso só se dá poucas vezes e não se repete com regularidade alguma; mas, ao olharmos o mundo, constatamos facilmente que tudo se produz o mais das vezes com repetição regular. Se assim é, é necessário dizer que todas as coisas se ordenam e se dispõem como a um fim, porque a regularidade com que se produzem não poderia dar-se se não se ordenassem a um fim e, portanto, se não o apetecessem.
Pois bem, as coisas ordenam-se ou dirigem-se a um fim de duas maneiras: antes de tudo, por si mesmas, assim como o homem se dirige por si mesmo a determinado lugar; depois, enquanto movidas por outro, assim como a flecha é atirada pelo arqueiro a determinado lugar. Ora, só as coisas que conhecem de algum modo podem dirigir-se por si mesmas a um fim, enquanto, insista-se, as coisas que não conhecem têm de ser dirigidas ou ordenadas por outro, que justamente conhece aquilo a que as dirige ou ordena. Desse modo, ainda que necessitem ser ordenadas por outro, também as coisas que não conhecem podem ser dirigidas a um fim determinado. Isto, porém, se dá de dois modos. Às vezes a coisa que é dirigida a um fim é tão somente lançada ou movida pelo que a lança, sem receber nenhuma forma que a faça inclinar-se ou tender naturalmente a tal fim. Por isso se diz que a inclinação dada pelo arqueiro à flecha para que esta atinja o alvo é uma inclinação violenta. Às vezes, todavia, aquilo que é dirigido ou inclinado a um fim recebe do que o dirige ou inclina uma forma pela qual essa inclinação lhe convém naturalmente: assim como Deus deu à pedra a inclinação natural a ser atraída pela terra, ao contrário do que fez ao fogo, que naturalmente se eleva e não é atraído pela terra. Desse modo, portanto, todas as coisas naturais se inclinam ou se ordenam naturalmente ao que lhes convém, de maneira que de certo modo alcançam por si mesmas seu respectivo fim: ou seja, não são pura e simplesmente conduzidas, como se dá com a flecha por inclinação violenta. Em outras palavras, as coisas naturais, graças a princípios naturais postos nelas por Deus, como que cooperam com aquele que as inclina ou ordena, ou seja, Deus mesmo. Com efeito, a natureza é o efeito de certa arte divina intrínseco aos entes que os faz mover-se por si mesmos a seu fim.
Assim, o que é ordenado ou inclinado por outro a um fim é inclinado a algo que está na intenção daquele que o inclina ou dirige: com efeito, a flecha é atirada para o alvo mesmo que está na intenção do arqueiro. Mas todas as coisas naturais, mediante certa inclinação natural, são inclinadas ou ordenadas a seu fim pelo primeiro motor, que é Deus, razão por que é necessário que aquilo a que cada coisa natural naturalmente se inclina seja algo querido por Deus mesmo, algo que esteja em sua intenção. Sucede porém que, em sua vontade, Deus não tem outro fim que a si mesmo, não apetece senão a si mesmo, e, porque ele é a própria bondade ou a essência mesma da bondade, é necessário que todas as outras coisas sejam naturalmente inclinadas ao bem: e dizer bem é dizer fim. Ora, apetecer não é senão inclinar-se a algo e ordenar-se a este algo. Por conseguinte, porque todas as coisas são dirigidas ou ordenadas por Deus ao bem, mediante algum princípio posto nelas por Deus e graças ao qual tendem por si mesmas ao bem, deve dizer-se que toda e qualquer coisa apetece naturalmente o bem. Com efeito, se as coisas fossem inclinadas ao bem sem ter em si nenhum princípio para tal inclinação, poderíamos dizer que seriam conduzidas ao bem, mas não que apetecessem o bem. Mas, em razão do princípio intrínseco que receberam de Deus, diz-se que todas as coisas apetecem o bem, justamente enquanto tendem espontaneamente a ele.
Por isso se diz em Sabedoria 8, 1 que a sabedoria divina «dispõe todas as coisas com suavidade», o que é o mesmo que dizer que todas as coisas tendem por seu próprio movimento àquilo mesmo a que são ordenadas por Deus.
(Continua.)

[1] Vide Santo Tomás de Aquino, De Verit. q. 22, a. 1; Super Sent. I, d. 34, q. 2, a. 1, ad 4 e IV, d. 49, q. 1, a. 2, qc. 1 ; supra q. 21, a. 2; Cont. Gent. III, cap. 3; Super Dion. De div. nom., cap. 4, l. 3 e 9; Sum. Th. I, q. 5, a. 1 e a. 2, ad 1; Super Ethic. I, l. 1.

Gemelação univitelina (um argumento que sempre aparece no debate sobre o aborto)

 Pe. Luiz Carlos Lodi da Cruz
Após a fecundação do óvulo pelo espermatozoide, surge um novo indivíduo, um embrião unicelular chamado ovo ou zigoto. Na quase totalidade das vezes, o zigoto desenvolve-se passando pelas fases de mórula, blástula, gástrula etc… rumo a um indivíduo humano adulto. Mas em um em cada 250 zigotos que se desenvolvem[1], ocorre a gemelação monozigótica ou univitelina, ou seja, o embrião primitivo sofre uma espécie de “divisão” e dá origem a dois ou mais indivíduos humanos. Ora, argumenta Josef Donceel, “uma pessoa humana não se divide em duas ou mais pessoas”[2]. Logo, segundo ele, o zigoto não poderia ser uma pessoa humana. Não teria uma alma racional e espiritual.
Esse argumento foi usado insistentemente (e quase obsessivamente) por Norman Ford, a fim de negar a tese da criação e infusão da alma racional no momento da fecundação do óvulo pelo espermatozoide (tese da animação imediata): “Quando o zigoto forma gêmeos, cessa a continuidade do mesmo indivíduo. Como indivíduo ontológico, o zigoto não pode considerar-se idêntico a nenhum dos dois gêmeos que se formam por efeito do seu desenvolvimento”[3].
Essa conclusão Ford estende a quaisquer das duas células (blastômeros) originárias da primeira mitose do zigoto, haja ou não gemelação: “o zigoto não sobrevive à primeira divisão mitótica, independentemente do fato de que depois haja ou não uma divisão gemelar”[4].
A primeira mitose seria. então, uma espécie de suicídio, de cujo cadáver emergiriam dois novos indivíduos sem continuidade com o primeiro. Essa ideia, porém, suscita dificuldades:
1. Em que momento o zigoto “morre” e os dois blastômeros passam a “viver”?
2. Quem controla o processo da mitose: o zigoto moribundo ou os blastômeros recém-chamados à vida?
3. Onde estão os sinais de descontinuidade semelhantes ao “big bang” da fertilização?[5]
A primeira mitose é realmente uma “divisão” do zigoto?
Angelo Serra, ao descrever sucintamente o desenvolvimento embrionário humano, fala da fusão dos gametas, mas evita falar em “divisão” do zigoto. Diz que do zigoto se forma uma segunda célula:
O primeiro evento na formação de um novo indivíduo humano é a fusão de duas células altamente especializadas e programadas, o óvulo e o espermatozoide, através do processo de fertilização. A célula que dele resulta no próprio momento da fusão é chamada “zigoto” e com ela inicia o desenvolvimento embrionário de um novo ser humano. Nela se desenvolvem de modo altamente coordenado processos diversos que em 15-20 horas levam à formação de uma segunda célula[6].
Quem melhor rebate o argumento de Ford, porém, é John Billings, aquele que, com sua esposa Evelyn Billings, sistematizou o célebre método de regulação da procriação baseado na observação do muco cervical. Vejamos como ele rebate Ford:
Na divisão celular a célula não quebra nem seu material genético é ‘compartilhado’; o DNA dos cromossomas produz uma réplica de si e essa réplica é dada, junto com uma porção do citoplasma, para a nova célula. A célula original não deixou de existir absolutamente[7].
É assim que Billings responde ao argumento de que “o zigoto não sobrevive à primeira divisão mitótica”. Mas então parece que é impróprio falar de “divisão” celular. Melhor seria talvez dizer “replicação” celular, ou seja, a produção de uma célula (réplica) a partir de outra célula (original). Vejamos agora como Billings explica a formação de gêmeos.
Se o citoplasma doado é tal que faça a nova célula totipotente, ela pode desenvolver-se como um gêmeo, ou mesmo, de igual maneira, produzir mais pessoas geneticamente idênticas. Novamente, as células progenitoras não cessam de existir. Com o tempo a formação de um outro indivíduo não é mais possível; as células adaptam-se a seus específicos papéis quando o crescimento e o desenvolvimento prosseguem. A identidade do zigoto como um ser humano, uma pessoa humana que continua a existir, nunca foi comprometida[8].
O momento da criação da alma racional
Ordinariamente a geração humana se dá pela fusão dos dois gametas. A criação e infusão da alma humana ocorrem no instante em que os gametas deixam de existir enquanto tais e surge um novo indivíduo humano. Esse instante está contido no evento da penetração espermática.
A gemelação monozigótica é um modo excepcional (assexuado) de geração humana. Em tal caso, a criação da alma se dá no momento em que uma parte se separa do embrião primitivo e torna-se um novo indivíduo humano.
Conclui-se daí que dois gêmeos univitelinos não são “irmãos” entre si. Um deles (não sabemos qual) é pai (ou mãe) do outro. O gêmeo pai (ou mãe) teve origem no momento da fecundação. O gêmeo filho (ou filha) originou-se no momento em que se separou do gêmeo pai (ou mãe).
Anápolis, 9 de junho de 2016.
Pe. Luiz Carlos Lodi da Cruz
Presidente do Pró-Vida de Anápolis

[1] Cf. Angelo SERRA, “Quando è iniziata la mia vita?”, La Civiltà Cattolica, 4 (1989),  p. 581.
[2] Joseph DONCEEL, “Immediate animation and delayed hominization”, Theological Studies 31/1 (1970), p. 98.
[3] Norman FORD, Quando comincio io? Il concepimento nella storia, nella filosofia e nella scienza, Baldini & Castoldi, Milano 1997, p. 184-185 (tradução italiana de When did I begin? Conception of the human individual in history, philosophy and science, Cambridge University Press, Cambridge 1988).
[4] Ibid., p. 324.
[5] No momento da fusão dos gametas (fertilização) há vários sinais que indicam descontinuidade ou salto: a “onda de cálcio” no citoplasma do zigoto, a “reação cortical” para evitar a penetração de novos espermatozoides, a expulsão do segundo glóbulo polar, a formação dos pronúcleos e a duplicação do DNA.
[6] Angelo SERRA, “Quando è iniziata…”, p. 576. O destaque é meu.
[7] J. BILLINGS, “When did I begin”, Anthropotes, 5/1 (1989), p. 126.
[8] Ibid.

Nova série em Estudos Tomistas: “A liberdade segundo Santo Tomás de Aquino”


C. N.
A liberdade é o ídolo do mundo pós-cristão. Por ela e em nome dela, correm rios de sangue, “mata-se” a Deus e a religiosos, e afirmam-se os direitos do homem contra os direitos e a glória do Criador. Mas há que saber se este mundo apóstata entende a liberdade de modo verdadeiro.
E, como se mostrará na série “A liberdade segundo Santo Tomás de Aquino” (cuja primeira postagem aparecerá na próxima semana), a liberdade no sentido neopagão tem sua semente na mesma Idade Média, plantada por renomados teólogos e filósofos, e é uma deformação monstruosa e revolucionária da verdadeira noção de liberdade. Mas não se tira a poderosa coluna de sustentação do mundo moderno com nenhum artigo retórico. É necessário expor detidamente (ainda que de modo algo facilitador) a doutrina de Santo Tomás a este respeito por quantas postagens se fizerem necessárias.
Fundar-nos-emos, centralmente, na questão 22 e na 24 de De veritate, mas recorreremos também a muitas outras obras do nosso Doutor e a atualizações de nossa própria lavra (com efeito, Santo Tomás não teria podido imaginar o assombroso espetáculo de degradação humana que padecemos em nome de uma liberdade entendida ao rés do chão).

Observação. Esta série se irá publicando paralelamente à série “Da necessidade de resistir ao magistério conciliar”, e, como esta, contará em princípio com uma postagem por semana.

Discurso do Príncipe D. Bertrand – XXII Encontro Monárquico (30/06/2012): uma constatação


C. N.


Sem deixar de lado as ressalvas feitas em O movimento monarquista brasileiro, convido-vos a todos a constatar por este vídeo que, ante um mundo apóstata, neopagão e preparador do advento do Anticristo, é um dever do católico apoiar o movimento monarquista liderado por Dom Bertrand. Ouvi-lo é como voltar a um tempo pré-revolucionário em que as nações se deixavam reger de algum modo, perfeito ou imperfeito, pelo Evangelho. Quantas conversões podem dar-se com o movimento monarquista e, ainda mais, com uma eventual restauração monárquica! Quanto pode fazer o movimento monárquico para esmagar, na alma de multidão de pessoas, as duas cabeças da hidra revolucionária!

A prudência política ordena-se também a aplicar concreta ou contingentemente a ciência prática da Política. Ora, tanto esta como aquela não podem deixar de fundar-se, para o católico, no lema do Cardeal Pie de Poitiers e de São Pio X: “Instaurare omnia in Christo” (Instaurar tudo em Cristo). Mas cabe à prudência política aplicar este lema à realidade segundo as condições concretas com que depara. Assim, antes da crise do sistema liberal-partidário brasileiro, perfeitamente alinhado com o vetor mundial para o Anticristo, aplicar corretamente tal lema implicava antes de tudo insistir nos princípios da política católica, e, quando muito, votar em candidatos menos ruins. Mas surpreendentemente rui, diante de nossos olhos, tal sistema, e ainda surpreendentemente a ideia monárquica e o mesmo movimento monarquista (católico!) vão conquistando crescente simpatia. Pois bem, sem acalentar ilusões que neguem a marcha final da história segundo as mesmas Escrituras,* o fato é que nenhum curso histórico é linear, senão que sempre consta de idas e vindas não raro inesperadas; além de que uma coisa é o desenho profético de dada sucessão de acontecimentos – e as profecias são como uma vista aérea de determinado terreno e seus acidentes geográficos –, outra o percurso que se faz nesse mesmo terreno, percurso que, pela própria natureza das coisas, não pode deixar de topar com surpresas e eventos súbitos. Pois bem, algo assim é o que se nos depara hoje no Brasil. Que sejamos capazes de arrostá-lo, sem ilusões, sim, mas de modo decidido. Será uma maneira contingente e atual, no meio dos escombros de um mundo deicida e suicida, e ainda que dentro das limitações que se nos impõem, de ajudar a instaurar tudo em Cristo. Se só algo se instaurar em Cristo com o movimento monarquista ou com uma eventual restauração monárquica, já será muito. Se nem algo assim se fizer, teremos travado um bom e justo combate.

Observação 1. Aos que insistem em que esta postura é uma denegação dos princípios da política católica, faça-se-lhes a seguinte pergunta: se lhes tivesse sido dado derrotar a revolução francesa mediante a restauração da monarquia absolutista, teriam deixado de apoiar (ainda que com reservas) esta contra aquela?

Observação 2. A questão da ordenação essencial do estado à Igreja é de infalibilidade ao modo ordinário, não extraordinário, e por isso, pelas razões já assinaladas na série Da Necessidade de Resistir ao Magistério Conciliar, pode gerar dúvidas, sem que os que se equivoquem quanto a ela sejam necessariamente hereges. Com efeito, também quanto a isto falta uma declaração extraordinária. E o que se acaba de dizer é plenamente corroborado pelo fato de que ninguém menos que o Cardeal Billot e o Cardeal Ottaviani, antiliberais convictos e militantes, tampouco tinham clara a necessidade da ordenação essencial do estado à Igreja (vide P. Álvaro Calderón, El Reino de Dios en el Concilio Vaticano II).    

* A saber: apostasia geral das nações a abominação da desolação instalada no lugar santo advento e império breve do Anticristo conversão dos judeus restauração cristã [o triunfo do Sagrado Coração] no mundo dentro de tempo mais ou menos breve, a Parusia ou segunda e definitiva vinda de Cristo, com a conformação de novos céus e de nova terra. Vide, no livro Estudos TomistasOpúsculos (Edições Santo Tomás, por lançar-se brevemente), a questão disputada Se Se Deve Rezar pela Salvação do Mundo, em cujo último artigo se trata justamente este assunto. Esta questão já apareceu nesta página, mas foi profundamente alterada para o livro.